domingo, 4 de dezembro de 2011

Que Bom Que Está No Fim

Por Paulinho Faria

Autopeças

Que Bom Que Está No Fim

Texto: Michele Ferreira

Direção: Otávio Martins

Elenco: Lulu Pavarin e Robson Catalunha

Encontrar essas “Autopeças” pela praça Roosevelt não foi uma das missões mais fáceis, ainda mais depois de algumas cervejas. Fim de noite. Também sou filho de Deus. Era a última da noite pra eu assistir, precisava relaxar.

Uma porrada de carros estacionados. Em qual desses poderiam estar os atores que teria que ver?

Avistei a Lulu num carro caindo aos pedaços e o Robson saindo do estacionamento num carrão. Acho que era isso mesmo. Parei pra ver o que ia acontecer.

Era minha segunda autopeça. A primeira peguei por acaso no meio da rua e agora essa com dois atores, um em cada carro, já soou diferente da primeira peça que eu vi que mais parecia um teatro de rua. Hã? Qual a diferença? Vou pensar e tento responder. Num outro dia. Enfim.

Se não soubéssemos desta parada de Autopeças e se os atores não estivessem equipados com microfones, certamente um transeunte não entenderia o que estaria acontecendo. Pararia pra ver ou tentar apaziguar dois malucos dentro de um carro desenvolvendo uma discussão.

Ao menos o ambiente estava propício pra que tudo pudesse ser de verdade. Os dois atores pareciam tão a vontades em cena, que mesmo eu embriagado e sabendo da situação, pegava-me acreditando e confuso com o que estava rolando. A troca de “gentilezas” inicial entre os dois era realmente de se assustar.

Lulu como sempre disponível, vinha com tudo. É incrível como consegue estar em cena sem se julgar. Robson inicialmente estava um pouco relutante ao jogo proposto, mas aos poucos sacou qual era e entrou na brincadeira, criando toda essa verossimilhança proposta pelos diálogos inteligentes e dinâmicos da dramaturga Michele Ferreira.

Queriam fugir do trânsito, da chuva e sobretudo deles mesmo. De si próprios. E quando tudo nos parecia resolvido, lá estavam eles novamente perdidos, como numa avalanche, como numa tempestade que talvez estivesse por vir, ou que já teria chegado, passado, chegado... blá, não importa. Essa tempestade existe em outra atmosfera. Vixe, hoje juro que não bebi.

Foi bom ver aquilo. Mesmo naquela bagunça da Praça Roosevelt, foi possível notar a direção caprichosa de Otávio Martins. O prazer de estarem realizando aquele trabalho. Na verdade quando acabou, pensei que pena que já está no fim. Um trabalho muito bacana que poderia ter continuidade, ou cumprir alguma espécie de temporada pelas ruas de SP. As pessoas certamente seriam pegas de surpresa, assistiriam e certamente após um longo dia de estresse voltariam pra casa satisfeitas, com um leve sorriso no rosto.

Muito bom!

Valeu!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Desvio

Por Renata Admiral
se permita mudar de caminho

AUTOPEÇA
"Desvio"
Criação: Lucas Arantes e Murilo Cesca
Elenco: Cia. Numseikitem: Murilo Cesca, Douglas Faria, Lucas Baumer e Lucas Arantes
Realização: Cia. Numseikitem e Cia. A Coisa e Teatro sem Porteira

Meu primeiro desvio foi tomado em novembro de 2010. Satyrianas, um crachá no peito e eu me movia em direção a uma das tendas montadas para o evento.
Um "garoto" corre em minha direção e diz:

- Assiste a gente!!
- Oi?
- Assiste a gente, nenhum de vocês vieram ainda, nós somos do Sul, vai começar agora, assiste a gente!!
- Não posso, tenho outra peça para ver, mas outra pessoa do nosso grupo virá assisti-los...
- Entra também, assiste a gente! - ele insistiu

Desvio tomado.
Penso que em certos momentos da vida, escolhemos uma direção, um caminho que pode nos transformar para sempre...num simples desvio.

Em um envelope eles chegaram: "olha o que o Sul nos trouxe". Três personagens em busca de seus sonhos, três "meninos" completos, que se completam formando uma unidade: Teatro.
Teatro Quase Mudo, quase inexistente em nossa cultura, ou pelo menos bem longe dos olhos de cidades grandes, capitalistas e comerciais. Cidades sem raízes.
Teatro, Quase, Nada. Representam tudo o que a palavra arte engloba utilizando-se de quase...nada.
Murilo (Henrique) Cesca. Mambembe nato, em sua fala "assiste a gente", olhar cheio de paixão. Um pequeno infante grandioso em sua arte.
Douglas Faria. Seu corpo é poesia, é pueril...sua entrega emociona e nos liberta de qualquer idéia pré concebida. Nos rendemos.
Lucas Baumer. Como não nos fascinar por seu corpo percursivo. A música que toma vida própria. Não é Lucas quem domina a música, mas sim, ela, que o tem como principal instrumento de expressão.
A Cia. Numseikitem existente desde 2006 vem somando em nossa cultura com seu teatro mambembe, levando a cada ano, acesso a arte para todo tipo de público.
Será então que o teatro é tão inacessível assim? Será que está tão longe de nós, como muitos, que, não tem o costume de ir, dizem? Ou somos acomodados em relação a uma arte tão efêmera, onde a magia acontece ao vivo, diante de nossos olhos, pulsante, onde atores e espectadores vivem momentos únicos, de troca de olhares, palavras e sensações que talvez só aconteça naquele instante, pois, na próxima apresentação serão outros olhos, outro pulso...
Por que não nos permitimos? Rir, chorar, se incomodar (sim, por que não?), sentir...refletir. Será que nos amedronta estabelecer relações reais?
Sentir algo em tempo real, com pessoas reais, presentes...pode ser um caminho, um novo caminho.

Meu segundo desvio foi tomado este ano. Satyrianas, novembro de 2011, crachá no peito. Avistei os meninos e corri até eles:
- Deixa eu assistir vocês?

A proposta das autopeças este ano no evento deixou muitos curiosos e a expectativa era grande para visualizar o que os artistas teriam vislumbrado desta interação com a cidade e com a expansão de noção do espectador.

O espetáculo já tinha seu início na abordagem aleatória feita pelas calçadas da praça. Os 3 escolhidos (por sessão) são convidados a entrar no carro. As portas se fecham e um sequestro é anunciado perante toda a praça.
No banco da frente o motorista e o sequestrador. Partimos.
Não é o sequestro pelo sequestro, é além. É a chance de nos perdermos e nos encontrarmos, de fugirmos do que nos condiciona. Nos sequestram sonhos, emoções, lembranças e ficamos reféns de suas palavras, prisioneiros de suas reflexões que se tornam nossas reflexões.
"E se em algum momento todos parassem", olhassem para dentro de si, o que encontraríamos mais submerso? E se conseguíssemos enxergar quem verdadeiramente somos? Não o que queremos ser ou como as pessoas nos projetam, gostaríamos do que veríamos?
A interação acontece conosco, dentro do carro, com a cidade e com as pessoas que transitam, vivendo suas vidas. Nos vemos nestes transeuntes, nos identificamos em seu medo, em sua falta de entendimento, na sua inércia.
"Estamos todos reverberando em uma única teia, é isso?".
É isso?? Sendo conduzidos por caminhos que não escolhemos, sendo manipulados dentro de um contexto que talvez nem sequer acreditamos.
Do que sente falta? De quem sente falta? "Quem você escolheria para ser espectador da sua história?"
"Você teria coragem de ligar agora, para alguém que sente saudades e homenagearia esta pessoa?"
Em meio a tantos sentimentos transbordando e a procurar um número de telefone somos surpreendidos por uma serenata dentro do carro, e então, tudo se mistura..."Casinha Pequenina", a voz do outro lado que diz "alô" e que diz também sentir sua falta, você (eu)...
Simples assim, a mágica acontece dentro de cada um.
O que fazer agora com tantos sentimentos borbulhando, com tantas sensações, como reagir a isso?
Ao final somos presenteados e aconchegados com um show de expressão musical, nos fazendo lembrar que estamos vivos, que pulsamos.

Para quem se permitiu ser tocado, para quem se permitiu vivenciar tudo o que foi proposto dentro daquele carro, só resta sair, sentar na calçada e deixar reverberar todos os sentimentos vividos naquele instante, deixar fluir, deixar sentir, deixar viver.
Sequestraram muitas peculiaridades minhas naquele dia...mas em troca, me deixaram mais viva do que nunca.

É na simplicidade, em seu teatro mais puro, junto com o que acreditam que eles conseguem tocar cada um de nós.

Numseikitem.
Eu sei o que eles tem. Eles tem um sonho que é igual ao seu, que é igual ao meu e que é bonito. Possível.
Eles tem um dom.

"Adelante"!!



quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Quer ouvir

Por Ruy Filho
Inseticida impróprio

DRAMAMIX
“Quer ouvir”
Dramaturgia: Priscila Nicolielo
Direção e elenco: Valentina Lattuada

Começo me repetindo. Já disse algumas vezes, tenho pra mim que Priscila é, dentre as jovens vozes da dramaturgia, quem melhor se utiliza dos adjetivos. O cuidado evidente na maneira como qualifica seus personagens e emoções faz de sua escrita algo diferente da banalidade usual do palavreado solto, em tom cotidiano, sem qualquer possibilidade de causar interesse ao espectador, enquanto a maneira objetiva com que constrói as relações, o foco de suas narrativas, foge da poesia excessiva também viciada aos tidos por dramaturgos experimentais. Priscila tem suas qualidades. E muito do que pode ser recebido em seus textos está realmente na capacidade em saber escolher as palavras usadas.

Se por um lado ouvir seus textos me instiga, por outro aguardo ansioso o momento em que explodirá as convenções. E me refiro, especificamente, ao conservadorismo com que se lança aos temas de seus espetáculos. Já dissera uma vez Mário Bortolotto que um dia ela deverá sujar as unhas. E é exatamente esse dia que parece cada vez mais próximo, mas ainda aprisionado a um instinto perigoso de comportar-se ao correto, à suficiência da boa escrita, aos desejos menores que insistem em se sobreporem aos valores fundamentais das sociedades e indivíduos contemporâneos.

Quer ouvir poderia ser um tentativa eficiente de ir além das fronteiras seguras que falar dos sentimentos, vitórias, vícios e sensações estabelecem ao teatro. Poderia, pois não ocorreu. O corte definido na dramaturgia pela atriz e diretora Valentina retirou o máximo acerto do que nela havia. Conhecia o trecho original de longas pesquisas de Priscila em tentativas e estudos para construção de uma peça. Lemos em casa, em roda, e a história de uma barata que entra na cabeça de um homem pelo ouvido, e nela decide permanecer, é magnífica e de ousadia rara no teatro atual. Enquanto o personagem se questiona se, por proximidade, a barata possui a capacidade de absorver tudo que pensa e sente, muito desse humano se faz contradição ao existir humano. Não remete a Kafka, não remete a qualquer experimentação surrealista. Mas expõe a capacidade da autora em adjetivar e nomear sensações e sentimentos inomináveis.

Depois de uma apresentação nitidamente insegura, ainda que a atriz soubesse se aproveitar disso para compor um estado à personagem, Valentina confirma para o público e autora que o corte no texto fora por sua própria conta. Talvez por não compreender estar no material abandonado o ponto crucial do interessante ao texto, ou apenas como recurso mesmo para encurtar a cena em si. Por ter sido uma leitura, portanto mais controlável e maleável, é uma pena que a barata tenha sido dedetizada da manifestação do teatro.

A quem deve a cena, por fim? A autora, que viu parte de seu trabalho realizado, ao a diretora/atriz que fez de si voz e face da narrativa? Essa questão é insolúvel e cada vez mais importante em processos de apresentações de textos. Só sei que sempre prefiro optar pela simplicidade do texto, quando não me sinto capaz de ser maior do que ele. Acho que essa é também uma função do diretor, perceber-se limitado aos princípios da dramaturgia. Sobretudo em processos como o que se dá em um evento como os Satyrianas, onde o autor entrega o material aos atores praticamente no momento de subirem ao palco.

Fica, então, a vontade de rever o texto em sua integridade. Fica a espera pelo amadurecimento de Priscila. E a certeza de que, se encarado o fazer teatro de maneira fundamental ao seu existir artista, Priscila, em breve, terá muito mais a nos oferecer. Só posso dizer que concordo com Mário. E espero um dia ainda ter prazer em ter nojo de suas imundas e incômodas mãos.

Serpente Verde Sabor Maçã

Por Paulinho Faria

Quem tem medo de Pavarin?

ESPAÇO PARLAPATÕES

“Serpente Verde Sabor Maçã”

Direção: Lavínia Pannunzio

Texto: Jô Bilac e Larissa Câmara

Elenco: Lulu Pavarin, Luna Martinelli, Angela Figueiredo e Fernando Facchio

Eu me recuso, eu me recuso a escrever esta resenha. Vou falar o que? Não tenho nenhuma novidade pra vocês meus amigos. Vou dizer o que aqui? Que Lulu Pavarin é uma atriz excepcional? Vocês já sabem disto. Não precisam mais. Vou dizer que ela ta numa peça du caralho? Dizer que o elenco todo da peça ta de tirar o fôlego? Pra que? Todos os que viram sabem disto e quem ainda não viu, corre pra ver. E nem me importo se estou sendo consensual.

É foda escrever sobre algo que gostamos muito. E sabe o que é mais foda? Foi a primeira peça que vi na Satyrianas e é a penúltima que estou escrevendo. Eu não sabia o que escrever. Ficava pensando. “Vou escrever o que?” Vai virar uma babação de ovo do caralho. E como podem notar, não estou conseguindo fugir do que tentei evitar. Preferiria parar por aqui, mas insistentemente vou continuar. Uma insistência minha comigo, quer dizer, sobre pressão, senão corro o risco de ser mandando embora hahah!

Escrever comédia, fazer comédia, dirigir comédia é sempre de muita ousadia. Ousado obviamente porque não é uma tarefa fácil. Nada fácil, diga-se de passagem, poucos conseguem se safar com mérito.

Quando me disseram que eu iria escrever sobre a peça Serpente Verde Sabor Maçã, assustei-me com o nome. Pensei: “Lá vem bomba.” Logo depois me disseram que era a peça com a Lulu Pavarin e isto apazigou minha primeira impressão idiota. E só ai me lembrei que eu já tinha me programado pra assisti-la, tinha me esquecido o nome, não é um nome fácil de se guardar. Não tinha ido ainda porque eu andava meio na pindaíba. Obviamente fiquei feliz com a missão. Poderia após um ano rever Lulu em cena.

Conheço Lulu Pavarin da rua, dos bares da Praça Roosevelt e a primeira vez que a vi em cena foi no monólogo “Como se Tornar uma Pessoa Pior” e registro aqui de antemão que foi o suficiente pra minha convicção dizer-me que eu teria que vê-la em outros trabalhos.

O dia chegou e encontrei um brother pelo caminho.

- To indo ver a Lulu.

- Quem é a Lulu?

- Pavarin.

- Hã?

- Uma doida cheia de energia que ta sempre pela praça. Chega junto.

- Mas... (Puxei o cara pelo braço sem deixá-lo pronunciar qualquer outra palavra.)

Dei uma rápida lida na sinopse da programação da Satyrianas e fui na fé. Nem sabia do que se tratava. Humor Negro. E isto animou-me porque a última experiência que tive com uma peça do gênero foi bem satisfatória.

Há algum tempo tenho ouvido falar de Jô Bilac. Ouvido bem. Lembro de ter assistido Cachorro, mas não lembrava se tinha gostado do texto ou não. Tudo que lembra Nelson Rodrigues me repugna. Não sei se “repugna” é a melhor palavra para o que quero dizer, mas a mantenho por enquanto, pois a peça parecia algo do gênero. E antes que me atirem pedras, abro um parêntese. Reconheço a genialidade do cara (Nelson) e não seria nem louco em querer discutir ou objetar algo sobre o seu trabalho, mas to de saco cheio de ver montagens dele. Até tem umas interessantes, mas pra mim já deu a cota. E isto como digo sempre, não coloca em questão a qualidade artística. Não estou discutindo se é bom ou ruim, mas ando só afim de ver novos autores e por isso também fui amarradão assistir o texto do Jô Bilac e Larissa Câmara.

Entrei na sala com um monte de fumaça, um clima quase noir e alguém de preto discretamente, onde só se via com nitidez a brasa de seu cigarro.

Deixo bem claro, que Lulu não é uma íntima e nem uma das minhas melhores amigas. É apenas uma pessoa que encontro casualmente pela rua e tenho um grande respeito e hoje uma grande admiração e não só pela atriz que é, muito mais pela pessoa.

Guardo comigo a máxima da obviedade de que quando se gosta de um trabalho é porque, dentre muitas outras coisas, não foi possível ver nada que te desagradasse na obra, ou seja, nenhuma falha, segundo o meu crível.

Além de Lulu, ela estava em cena muito bem assistida e acompanhada, por pessoas que casualmente encontro pela praça. Luna Martinelli, Fernando Fecchio e Angela Figueiredo.

Não poderia deixar passar batido a direção segura que parece ter buscado referências no cinema noir e em malucos como Tim Burton e David Linch.

A peça poderia ter se tornado um grande clichê, por ter bebido dessas fontes e igualmente a trilha, mas o trabalho minucioso de todo o elenco junto com a direção teve uma grande perspicácia para que isso não acontecesse. Encontraram o tom e a medida certa. Menos, seria insuportável. Mais um pastelão babaca, apoiado numa sucessão de clichês.

Cumpriu-se o dever. Quando o teatro não atinge sua função catártica, no mínimo precisa ser despretensiosamente prazeroso, para que ao fim tenhamos aquela sensação de leveza ao retornar para nossas casas. E foi assim que sai de lá. Leve, alimentado, como se tivesse acabado de bater um rango da hora no... sei lá... “Figueira?”

Você saca que o humor presente, é só um pretexto pra nos revelar por debaixo dos panos a escrotidão humana. A mulher por quem temos tanta empatia é uma assassina que se sente no direito de julgar quem é bom ou ruim. Quem vive e quem morre. É tão malandra que gostamos dela pra cacete, mas se fosse na vida real, certamente estaríamos metendo o dedo na sua fuça e mandando-a pra puta que o pariu da cadeia e sem o mínimo de pena. Como somos miseráveis e hipócritas não?

O texto tem ótimas sacadas, brinca com absurdo e finge não ser realista e é por isso que nos é mais divertido, porque daí a gente finge que tudo aquilo ali é mentira. Será mesmo?

Os personagens estão construídos inteligentemente. As caricaturas das quais, às vezes eles se utilizam, poderiam comprometer o trabalho, tornando-os extremamente desinteressantes, mas a brincadeira a qual os atores se permitem e se entregam é de uma preciosidade incrível, que o efeito em cena é todo ao contrário ao previsto. Não tem julgamento. Existe uma sintonia que há muito tempo não via no palco e pra mim pelo menos esse é o grande prazer de ir ao teatro. Ver bons atores.

Ver Lulu em cena é extremamente prazeroso. Como a vejo por ai e a conheço sei que não é uma menina de 20 anos, mas ali e as outras vezes que a vi em cena parecia-me uma criança de 10, 12 anos de tamanha espontaneidade sobre os palcos. Vale a pena pela lição que nos dá, pela vontade e vitalidade de realizar o que lhe foi proposto, aliás muito mais do que lhe foi proposto e o que é mais difícil, sem extrapolar o seu limite, sem cair na redundância ou tautologia a que um ator sempre está arriscado a cair. E com mais trabalhos como este, certamente minha opinião sobre comédias cairia definitivamente por água abaixo.

E no final, restou-me perguntar ao amigo perdido que me acompanhou:

- E ai mano, o que achou?

- Essa Lulu Pavarin?

- É!

- Muito doida mesmo!

- E a peça?

- Valeu por ter me convidado.

Ufa. Cheguei ao fim e não consegui fugir do que tentei evitar, mas fazer o que. Gostei pra cacete e não teria muito o que falar se não isto.

É nóis!

Eles seguem temporada no Parlapas e para mais informações, dá um Google ai.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

E a Roosevelt?

Por Luiza Novaes

SATYRIANAS 2011

No primeiro dia dei de cara com a frase do evento, olhando um cartaz rosa bem chamativo, o slogan nos mandava: “Reforme Suas Idéias”, uma saudação à primavera… travei, não conseguia pensar em outra coisa, o que afinal estavamos fazendo?

Saída de um curso de ciências sociais, sempre tive muito cuidado com o uso de determinadas palavras por que sabia que elas custariam caro ao pronunciá-las, logicamente não estava preocupada com a palavra em si, mas com o tipo de idéia que seria gerada dela. Além da corrente que estava puxando por emití-la!

Fui ficando chata com o tempo, admito!

Conversando com um dos organizadores do evento vim a descobrir que a bendita frase foi inventada por um dos fundadores do grupo e que o significado tinha também referência à reforma que na realidade estava ocorrendo na praça… A Roosevelt… o que acalmou meu coração e minhas demandas de explicações em geral. Não deixando de lado o mesmo comentário que nossa querida homenageada emitiu no fechamento do evento: temos de lembrar da especulação imobiliária…

Mas explico novamente, um dos eventos que mais admiro na história da humanidade recente é o Woodstock onde na realidade os atores sociais do período puderam criar correntes de argumentação bem interessantes para pensarmos nesse texto, aqueles que queriam usar armas e os que queriam amor… revolução e reforma…

Simplificando muito tudo o que acredito ser importante, a arte pode ser um instrumento muito poderoso, de mudança real.

Não é mais possível ficarmos isentos e não escrevermos sobre isso, quando vamos numa satyrianas precisamos ter certeza que diversos artistas estão sendo representados, que teatro pague quanto puder não é só para meia dúzia e que o que iremos ver tem uma determinada qualidade…

Sinto falta de um pouco de política, sei que alguns dos meus amigos de resenha crítica viram algumas peças que tocavam no assunto, mas sinto vergonha de não ouvir falar que o momento em que estamos vivendo é o momento em que mais as artes estão recebendo investimento e maciço.

Somos um bando de artistas, cheios de lugares e equipamentos culturais que funcionam o tempo todo, pagamos ingressos, consumimos cultura, fazemos um cálculo custo-benefício…

Que tipo de arte se quer ver? Se tem a arte que se quer ver? O que nos faz pessoas melhores na arte?

Tá bom eu sou Pollyana…

Cabaret Stravaganza

“Meu corpo é meu corpo, cada parte dele” Marylin Monroe – fragmentos pg. 81

Por Luiza Novaes

SATYROS I

“Cabaret Stravaganza”

Direção: Rodolfo Garcia

Tá na moda falar sobre corpo, afinal de contas, se por um lado temos um corpo que já passou por todas as fases desde a sua total exposição até o momento atual, em que me parece que o retorno de se ter um corpo que se esconde, volta para a cena, o tema é bem contemporâneo, no sentido bom do termo.

Afinal, o nosso país é o lugar da pornochanchada e nada mais possível de ser realizado na época de repressão do que a diversão do nosso povo! (risos)

Por outro lado, os comentários são de todo o tipo e na maioria das vezes tudo bem contraditório, se temos alguns especialistas de diversas áreas que afirmam que o corpo deve ser modificado, para esconder a velhice bem como o ranço da falta de desejo que iria imputar esse corpo que já não cabe mais no mercado de carne!

Outros mais conservadores, apreciam a naturalidade do corpo com sua juventude ou velhice, mas que traga a clareza de um corpo que é sim marcado pelo tempo e por isso sofre com ele todas as transformações…

Acredito que ambos os conceitos acima delineados são um tanto quanto extremistas, e discordo do artigo de Luis Pondé de hoje na Folha de São Paulo (21 de novembro de 2011), dizendo que o silicone é a saída para o mundo… vamos lembrar que ainda, até onde sei, beleza é um conceito a ser discutido, e o tal do belo, já provou um monte de tratados de diversas naturezas, que possibilitam ainda mais que essa discussão fique fervorosa!

Inicio com esse longo discurso, meio sem rumo ainda, para pensar sobre uma peça que assisti no primeiro dia de Satyrianas, mas que estava maturando para conseguir trabalhar uma boa resenha, Cabaret Stravaganza.

Antes de mais nada, gostaria de dizer que tive sorte nessa Satyrianas, fui premiada com comédias e peças interessantes, com motes que davam pano para manga!

Os Satyros são um grupo que agora já possuem uma estrutura física de espaço, escola própria que treina seus próprios atores e um monte de fãs preparados para conseguir galgar um lugar no elenco, sua estética já possui consolidadação e com isso, obviamente não sofrem com os pânicos da falta que um grupo inciante e mesmo um grupo de teatro que ainda não tem estrada sofrem! Dito isso…

Gostaria de esclarecer um segundo ponto, isso não isenta o grupo de buscar novas pesquisas e tentar ainda que com o mesmo elenco trazer novos desafios de interpretação para que o públilco que não conhece trema quando assistir a um espetáculo e para os espectadores assíduos saibam que irão assistir algo diferente!

A inovação no caso da peça analisada é no sentido da temática, que muito atual, conversa com o preâmbulo do corpo, com o mundo virtual e essas novas relações que andamos estabelecendo o tempo todo.

Temos criado hábitos que esquecemos de perceber, o que representa essas horas que despendemos na frente do computador e afinal, o que escolhemos ver, sentir, julgar, avaliar…?

Nossa sociedade impõe uma tela, que os meninos do elenco expressam muito bem, de uma fragilidade um tanto quanto esquisita, e quando entre nós há uma máscara que não é mais teatral ou do cinema, senão avatares de nós mesmos que esquecemos que criamos. Quem somos nós?

O monstro de nós, que habita na nossa pele, aquele que twita, aquele que facebooka, o dos e-mails, aquele que escolhe sites de diversas afinidades das mais bizarras às mais comuns…

Simpatizei muito com a dor da experiência de descrever os suicídios que ocorrem nos redores da Roosevelt, eu mesma já me sensibilizei muito quando um amigo estudante da minha universidade se jogou do quarto andar… Isso provoca pensar afinal, o que resta de nossa vida e de nossa morte e o que fazemos nesse meio tempo?

Outra inovação é a quebra da quarta parede para apresentar pequenas pessoalidades desses atores que vemos quase “inventadas” no nosso imaginário, principalmente dos assíduos que disse da Roosevelt e dos Satyros em específico, desvendando verdades que foram questionadas por um dos personagens em dado momento, que provocam a nossa curiosidade ainda mais, será que o Fábio Penna sentiu dor na primeira vez e que Cléo Paris ouviu secos e molhados naquele momento? Será que Phedra sempre se via no espelho como um menino que queria ser menina? E daí por diante… Recurso muito importante para trazer o público para perto.

Senti um pouco de falta de uma linearidade, ainda que imaginária dos próprios personagens, sentia que não sabia ao certo o que pensar ou como foram montadas as cenas, acho que isso pode ser uma proposta que o grupo se utiliza, mas sinto um pouco de vontade do grupo responder essa contemporaneidade de uma forma mais delineada, se me permitem…

A prisão é dentro de nós como um dos personagens cita, então vamos quebrar essas barreiras e buscar nessa identidade e nesse corpo também algum tipo de informação que não seja só essa que de alguma forma temos o tempo todo do fragmentado, daquilo que é parte, vamos achar o todo, qual é o nosso todo, ainda que tenhamos como bibliografia a Sarah Kane, ainda que Durkheim e o sucídio foi pensado, ainda que possamos trazer o fato de que as pessoas já nascem personagens, ainda que Shakespeare e Stalinsnavski.

Somos híbridos então, vamos nos organizar e montar um discurso e propor algum tipo de sonho, já que vocês meus queridos já sonharam tanto e já conquistaram tanto, já podem nos mostrar até isso, espero…

É só a chuva lá fora...

Maria Teresa Cruz
Quem não se emocionou nessa peça é ridículo

DRAMAMIX
"É só a chuva lá fora..."
Direção: André Garolli
Dramaturgia: Paula Chagas
Elenco: não consta na programação

O texto de Paula Chagas não tem nada de novo. Nada. É um ex-casal que se encontra, ao acaso, debaixo de uma chuva torrencial em frente a um show da Maria Bethânia para o qual nenhum dos dois tem ingresso. Visualizaram? Não há nada de especial, não fossem os detalhes. A forma como a encenação foi pensada também não oferece nada de novo, mas funciona muito bem. A ponto se você se imaginar nela. E se emocionar. Rir e chorar, para os que ainda estão machucados por uma paixão que passou. Quem nunca esteve, que atire o primeiro tomate nos atores, que estavam ótimos, aliás. Uma encenação e atuações simples, que dialogavam com o texto despretensioso e leve.
Ora me identificava com o rapaz, ora com a garota, que, em certo momento, ao falar com raiva da atual namorada dele, se comparava e se dizia "anacrônica", por não saber tanto das novas tecnologias. Ou quando ele falava que, pelos vinis que ela deixou na casa dele e nunca foi buscar, ele podia entendê-la melhor. Disse que podia até mesmo imaginar em qual ordem ela ouvia os discos e as músicas, e quando estava triste, alegre ou brava. Eu me encantei especialmente pela simplicidade ao falar de amor e pela imediata identificação com um, dois ou vários elementos da cena. Por que, repito, quem nunca teve um amor que nunca esqueceu? Quem não olha para alguém e tem certeza que, embora separados por força das circunstâncias, a pessoa é sua cara metade?
A escolha da Bethânia é excelente. Uma moça anacrônica, confusa e apaixonada não poderia ouvir outra coisa senão Bethânia. Falo como um espelho. Bethânia é intensa e tem um "pézinho" no brega que faz toda a diferença. E a peça termina com Fernando Pessoa com seu poema, em off de ninguém menos que Maria Bethânia, "Todas as cartas de amor são ridículas", e emenda uma canção dela, dançada debaixo da pequena cobertura em frente a casa de shows. É brega e inspiradora. Não teve quem não se emocionasse. Me deu um sentimento bom. Uma tristeza gostosa com uma pontinha de esperança. Mesmo porque ficou claro que ainda existia afeto entre os dois e uma possibilidade de um reencontro. Porque já dizia Jean-Vanier: "Um encontro é coisa rara e maravilhosa". E eu, particularmente, descobri que "todas as cartas de amor são ridículas" e mensagens de celular, as cartas de amor versão high-tech, também. Ao sair do teatro, chovia lá fora. E eu escrevi uma mensagem, tão ridícula quantos as cartas de amor do Pessoa, para alguém. Mas não tive resposta. Ou melhor, tive: o desencontro. É, caros leitores, foi isso que a peça provocou em mim. E a arte é assim, na minha opinião: só tem valor se te modifica. Acho que nunca me expus tanto, mas saibam, leitores, que essa reflexão foi tão honesta quanto esse trabalho.

domingo, 20 de novembro de 2011

Lady Rivotril e o Rei da Praça Roosevelt

Maria Teresa Cruz

DRAMAMIX
"Lady Rivotril e o Rei da Praça Roosevelt"
Direção: Celso Cruz
Dramaturgia: Celso Cruz
Elenco: Tatiana Molon e Celso Cruz

O texto foi apresentando como leitura dramática, devidamente explicado pelo autor, Celso Cruz. Ainda assim, não posso me furtar de dizer que uma jovem que estava ao meu lado desabafou, baixinho: "Ai, eu queria uma montagem...de novo leitura". Cabe esse adendo, na minha opinião, porque esse ano, diferente do ano passado, muitos trabalhos inseridos no Dramamix foram leituras. No ano passado, havia a classificação: "leitura dramática" o que, de certa forma, facilitava ao público saber do que se tratava aquele trabalho. A jovem ficou decepcionada. E eu, de certa forma, também.
Eu fiquei curiosa para ver a montagem desse texto. A história é aparentemente banal: dois artistas, que tiveram um envolvimento afetivo, se encontram depois de muitos anos. Nesse encontro falam da vida pessoal, do que se passou no tempo em que ficaram sem contato direto e, claro, do que, de certa forma, os uniu: o teatro. E aqui cabe dizer: o teatro e todas as implicações de realização da arte nos dias de hoje. Esse foi um tema recorrente, ao menos nas trabalhos que pude assistir, nessa edição da Satyrianas. E é uma discussão de suma importância.
O desenvolvimento da história é interessante, os diálogos trazem humor e muita sensualidade, afinal, os personagens tiveram uma história que vem a tona durante todo o bate-papo. Aliás, bate-papo é a definição para o texto. Senti isso. E por isso gostaria de ver essa montagem, porque, embora o texto seja tradicional do ponto de vista narrativo, a encenação poderá ter brilho pela cadência e informalidade que existem nele. É repleto de clichês, mas, em certo momento, o dramaturgo se coloca na peça como "um detentor e provedor de clichês". Se foi uma crítica espelhada, bingo! Porque, como já escrevi em outro momento, é difícil ser diferente. Ousar e acertar é para poucos.
Um dos pontos positivos, embora com alguns excessos, foi misturar os laços afetivos dos personagens aos profissionais. Porque, em última análise, há uma ironia na mistura desses dois campos. Pessoal e profissional, público e privado. São linhas tênues que dividem essas esferas que são distintas (ou ao menos deveriam procurar ser) mas caminham juntas. Os excessos ficam por conta das insinuações e das lembranças sexuais dos dois. Podem ser marcas do autor, mas foram perdendo a graça ao longo da leitura. Embora tenha em meu nome o signo cristão de Maria, não sou carola. Afinal, o que é a vida senão uma série de sacanagens. E eu gosto, ok! Quem não gosta? Mas, de fato, no texto, parou de ser engraçado em algum momento...
Uma coisa que me incomodou foi o título: o "rei" da praça Roosevelt tem um sarcasmo, eu gostei. Mas, Lady Rivotril? Acredito que houve uma tentativa de estabelecer uma analogia aos tempos atuais, a "droga" da classe média e dos que passaram dos 40 e entenderam que a vida não começa aos 40, mas não funcionou. Na leitura, ao menos, não funcionou. Ela, aliás, é muito mais equilibrada que ele. Sendo assim, será que o Rivotril é a solução? Acho que não, hein?!
O autor coloca o universo do texto se desenvolvendo no contexto cultural da Praça Roosevelt, abre brechas para críticas e direcionamento mais diretos que deixam o diálogo mais aproximado de quem produz arte da praça e frequenta o local. As discussões são importantes na medida em que questionamos o que estamos fazendo daquele espaço. Queremos que ela (a praça) crie uma identidade do tipo de trabalho que é feito lá, caindo em uma análise maniqueísta do que é bom e do que não é ou que seja um espaço para a liberdade de realizar.

666ponto9quase7

Por Renata Admiral
a vida é amarga

ESPAÇO DOS SATYROS UM
"666ponto9quase7"
Dramaturgia e concepção: Fabiano Garcia e Thiago Leite
Elenco: Companhia Teatro da Garratifa

Pensei muito para iniciar esta resenha, tanto que é uma das últimas.
666ponto9quase7. Fui buscar ajuda da numerologia cabalística para ver se me norteava.
6+6+6+9+7 = 34 = 3+4 = 7. Interessante. Sabe qual é a relação entre a peça, seu título e a cabala? Nenhuma.
Voltemos ao ponto inicial portanto.
A peça tem a intenção de abordar 666ponto9quase7 assuntos num período aproximado de 1h30.
Com a proposta de um cenário contendo tudo o que é utilizado durante o espetáculo, acompanhamos as trocas de figurino, as mudanças de objetos, tudo na nossa frente. Muito bem resolvido e esteticamente harmonioso.
Empenho. É o que vejo nos elementos de cena, em cada objeto, em cada cena proposta. Tudo parece ter sido confeccionado pelos próprios atores.
Entrega. Não posso negar a disponibilidade dos atores, acreditam na proposta desde o seu início e vão até o fim com a mesma vontade, admirável.
Não estou dizendo que não temos problemas com as interpretações, mas qualquer problema é pequeno perto do amor com que os atores fazem este espetáculo.

Contexto(s): linha do tempo; como a sociedade se comporta em relação ao tempo, espaço, acontecimentos. Tudo junto, misturado. Fala-se de astrologia, metereologia, sonhos, premonições, feitiçarias, rapidez, lentidão, ufa!!

O tempo interno versus o tempo externo. O que sinto por dentro e como eu externo por muitas vezes o oposto.

Linha da vida; o que te destrói ao longo desta linha, a submissão do ser desde o seu nascimento, perante a sociedade da velocidade, dos acontecimentos múltiplos, da diversidade de informações e do que é pré-estabelecido.

Nascemos, crescemos e morremos diante de uma sociedade enferma.

De um lado, Deus com seu livre arbítrio falso dado ao ser humano, do outro, regras, condições, cobranças, bons costumes, conservadorismo, opressão.

Os sentimentos que devem ser ocultados: inveja, traição, perversões versus os sentimentos que devem ser externados: felicidade, consumo, prazer.

Podemos ser quem queremos ser, quem somos?

Livre arbítrio falso dentro de uma sociedade cultivadora da falsa moralidade, da falsa felicidade, da falta de verdade, do falso glamour. Vícios, tendências, consumo, excesso, instintos, prazer. Vida falsa. A inversão dos valores.

O espetáculo que é um conjunto de críticas desta sociedade que se perpetua através do tempo e continua igual no que diz respeito ao ser humano, com suas vontades, segredos, sua identidade geralmente perdida, subvertida ou até mesmo escravizada.

Quem você era há alguns anos atrás? No que você se tornou? Você gosta do que vê? O que se perdeu? Você faz parte do todo ou da minoria que tenta ter voz?

Que tipo de seres humanos nos tornamos e que tipos estamos formando?

Uma reflexão ampla e importante.

Porém uma peça que se propõe a dialogar com a questão do tempo e dos excessos se perde em sua própria análise.

Excesso de tempo, de informação, de movimentação. Vemos todos os símbolos e signos possíveis presentes e atores exaustos (porém firmes e fortes como mencionado no início da resenha).

Se falam sobre o tempo temos relógio, ampulheta etc.

Se falam na relação mãe/pai/filho na formação de seres humanos temos 666ponto9quase7 cenas sobre o tema e suas variações: complexo de Édipo, masturbação, pedofilia etc.

Se falam sobre excessos temos drogas, gula, vômitos etc.

O clímax da peça se dá em vários momentos, apontando para seu final que nunca acontece. E a resposta a isso veio do público que abandona o espetáculo no meio.

Temos cenas ótimas, contextos bons e atores que poderiam ser mais trabalhados, mas na sua totalidade cansa, e muito e etc. Seria algo a se repensar.

“Será que a vida é doce? Não! A vida é amarga” - e o espetáculo, infelizmente, também.








Taeter

Por Renata Admiral
acho que ninguém resolveu

DRAMAMIX
"Taeter"
Direção: Luiz Päetow
Dramaturgia: Luiz Päetow
Elenco: Luiz Päetow

Pois bem, creio que fui uma das pessoas que saiu bem incomodada desta experiência. Não vou me ater na questão “gostei” ou “não gostei”, principalmente por ainda ser algo indefinido dentro de mim.

Dialogarei com os tópicos levantados pelo meu colega resenhista Claucio para iniciar minha resenha, completando com meus pontos de vista.

- o jogo com a expectativa de um espetáculo teatral: ao se adentrar em um teatro, tudo pode ser esperado, a questão mor é se seremos surpreendidos com o que vamos ver e com a forma como será mostrado. Poderemos ser surpreendidos positivamente ou negativamente, é fato.

- segundo ponto: a sensação de sufoco, angustia. É de se esperar que algo sensorial, mexa obviamente com nossas sensações, aguce um movimento interior, se essa foi a proposta, não foi o que aconteceu. Vemos uma platéia incomodada, mas não da forma que poderia se esperar; vemos uma platéia que ri, caçoa, fala o tempo todo, que não se “comove” com absolutamente nada da proposta, uma platéia que não aceita aquela experimentação.

- o terceiro e o quarto ponto serão debatidos em conjunto: as frases feitas (de efeito, pode-se dizer assim? não sei) e a questão comportamental de ambas as partes espectador e “atores”.

Analiso neste terceiro e quarto tópico, a passividade do espectador em relação aos “atores” por dois ângulos:

- O choque pelo que está sendo apresentado; a espera para que haja algo que faça valer a pena estar naquele local.

A descrença, ou a credibilidade de que algo irá acontecer, chega a seu absurdo quando as portas do teatro são abertas e todos continuam em seus assentos... acendem as luzes gerais do teatro e mesmo assim vemos espectadores inertes...esperando ver algo (literalmente neste caso).

- o outro lado da passividade da minha análise, particular, que pode ter sido - ou não – o objeto de pesquisa, é a inércia do ser humano, a falta de atitude, a permissividade sem limites a que nos submetemos diariamente.

É assustador o quanto somos passivos, todos, na condição de seres humanos. Submetidos dia após dia a situações desconfortantes, seja no trabalho, numa submissão em uma relação a dois, numa impotência em relação à impunidade do país, ou mesmo a um assalto cotidiano pelas ruas. Um povo que não luta por seus direitos, seja de consumidor,seja de indivíduo dentro de um sistema.

Vamos em frente.

Relação “atores” / espectadores.

As frases ecoam / suplicam:

- “Ação” – reaja!!!

- “Vocês vão ter que resolver” – atitude!!!

- “Desliga o celular” – ou....???

Como instigar / provocar o público a ponto do mesmo sair de sua inércia habitual e sentir o movimento interno que o faça reagir externamente?

Da mesma forma que não houve reação do público, tão pouco houve dos “atores”. Só posso concluir, portanto, que aqueles celulares ligados fizessem parte do experimento, uma vez que os “atores”, assim como a platéia, não “AGIRAM”, nem “REAGIRAM”, ficaram na promessa não cumprida, na atitude não tomada, no conforto habitual. Não incomodaram, nem se incomodaram. A sensação foi um vazio profundo. Um nada.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Meu Filho

Por Paulinho Faria
Dramamix
“Meu Filho”
Texto e Direção: Luciano Mazza
Elenco: Regina Schirmer e Tânia Bondezan

Plateia cheia. Público ansioso. Eu tenho essa estranha mania de ficar notando essas coisas antes de começar o que quer que seja que vou assistir. E confesso aqui discretamente que durante também. No cinema é mais foda. As cadeiras são mais distantes, é bem mais escuro e o público é variado e mais estranho. Não é o mesmo público que to acostumado a ver no teatro que sempre tem muitos conhecidos na plateia. Esta é a única diferença. Aposto que se eu ficar ETezando no cinema, alguém vai mandar chamar o segurança e eles vão me arrancar na marra. Vão achar que sou algum tarado filho da puta caçador de ninfetas.
Acho que gosto de fazer isso, de ficar observando as reações das pessoas, pra sentir o que funciona e não funciona no geral. Já que trabalho com essa parada e não tenho dinheiro e nem saco pra ir a escola, fico neste esquema. Nunca me foi atraente a ideia de ficar sentado e os mano falando um monte de coisas que decoraram dos livros, ou colocar umas roupas de moletom e ficar fazendo ginastiquinha, no caso das aulas de corpo ou o zzzzzzzz na aula de voz. Calma ai, forçosamente já passei por isso, ainda bem, porque foi assim que descobri que não tenho saco pra isso. Fiz faculdade e a porra toda. Apesar de não ter uma gramática afiada na escrita, aviso de antemão que tenho o superior compreto.
Voltando a peça. Sentei e fiquei na boa, com o mesmo caderninho de anotações do ano passado já que este ano não ganhamos um novo. Ô produção!
Começou e vi tudo atentamente. E o que me vinha a cabeça mais uma vez era a questão da dramaturgia e junto com ela as dúvidas constantes. Será que o texto influencia muito na direção, trabalho dos atores, ou independe? Eu sei as respostas comuns a essa pergunta, mas prefiro manter-me em dúvida.
Dramaturgia não é meu forte, não é no que me ligo mais, mas venho pensando muito. Penso, por exemplo, por que tantos rodeios pra se chegar as vias de fato? Tudo bem, não dá também pra ir direto ao assunto, porque senão não terá teatro. Eu sei que é foda pra cacete também resolver dramaturgicamente uma peça em vinte minutos, mas se propomos a fazer, temos que dar um jeito.
Ao contrário de muita gente acho que no nosso país vem surgindo uma leva fodida de dramaturgos. Muita gente a ser descoberta e muita gente boa pra amadurecer.
Todo esse rodeio pra falar primeiramente sobre o texto de Luciano Mazza que tem um mote muito delicado e interessante. Um assunto polêmico que por si só já levanta diversas questões. Gosto da escolha do autor, mas sinto que patina muito pra se chegar aonde quer.
Os artifícios e argumentos usados não tem força suficiente pra sustentar a história da mãe que espera o filho que não vê há vinte anos e quando o reencontra ele já não é mais o menino que deixou ir embora, porque agora transformou-se numa menina. É difícil pra ela entender, ou aceitar esse processo, mas mãe é mãe. E a menina que ela sempre projetou, antes do nascimento do seu menino, agora se apresenta a ela como vendedora de Yakult. E é ai que mora o perigo nesta dramaturgia. Apesar de ser uma ótima brincadeira, não perderia tanta força, se fosse talvez um pouco mais comedido. Toda a história que poderia explorar e se aprofundar mais fica na superficialidade da brincadeira do merchan do Yakult.
Confesso que foi até gostoso quando a mulher apareceu com o carrinho, pois de imediato me remeteu à minha infância na Vila São João em Campinas, quando a mulher do Yakult aparecia toda semana em casa e minha coroa enchia a geladeira de Yakult. Era uma piração pros pirralhos maltrapilhos (eu e meu irmão.) Era a mesma época que all star, bamba, heringue etc eram marcas populares e a gente comprava de baciada. Tentem fazer o mesmo agora.
Acredito que se bem trabalhado este texto pode surpreender mais ainda e ir muito além do imaginado. A montagem pode detonar.
Nunca tinha visto as atrizes em cena. As duas tem uma presença cênica fora do comum. Tem muito carisma, mas como levantei aqui a questão da dramaturgia, não foi possível enxergar todo o potencial das duas. Senti-as presa demais ao texto, claro que levo em consideração o pouco tempo de ensaio que as pessoas tem pro Dramamix, mas isso se deu mais pelas impossibilidades da dramaturgia do que o pouco tempo de ensaio, pois a direção estava na mesma. Limitando-se somente ao texto.
Talvez o caminho da tragicomédia não seja o ideal pra este mote. Não sei se foi proposital, ou eu estou viajando nesta para tragicômica.
Bom, voltando ao assunto de abertura desta resenha, não agi diferente nesta peça. Ficava o tempo todo olhando pras fuças das pessoas e como se divertiam. Depois aplaudiram calorosamente. Então isso significa que posso eu mais uma vez estar equivocado. E qual o problema? Estou apenas dialogando e tentando entender mais um pouco dessa arte. Tentando me entender. Sobre a segunda possibilidade, eu sei que é uma tentativa em vão. Mas que prazer tem a vida sem essas porcarias de tentativas?