sábado, 27 de novembro de 2010

Atirei no dramaturgo

ATIRAR E NÃO ACERTAR
Por Ruy Filho

TENDA DRAMAMIX
“Atirei no Dramaturgo”, de Mário Viana
Direção: Otávio Martins
Elenco: Amazyles de Almeida, Pedro Guilherme e Vitor Moreno

Vulgar, segundo alguns dicionários, quer dizer comum. A associação vulgar de Vulgar, entretanto, é com algo popularesco e apelativo. Lidar com os fatos comuns é sempre desafiar a banalização como estratégia de reconhecimento da realidade. Todavia, lidamos com o comum vulgarmente, mas deturpando seu sentido ao compreendido pelo apelativo popular. Quando fatos excepcionais do nosso cotidiano ganham valores teatrais, por si só identifica a necessidade em banalizarmos as ocorrências. É como se precisássemos dar conta das incompreensões daquilo que nos atinge ridicularizando e menosprezando sua intensidade. Rir se torna um artifício simplório de lidar com o sofrimento, a dor, a ausência, o medo, a desconfiança, o desconhecido. Banalizar a vida apazigua a dificuldade em lidarmos com a realidade em toda sua obscuridade. Se o medo e o desconhecido tornaram-se evidência em nossa rotina, soma-se a ambos a presença latente da violência descontrolada e desmedida. A morte deixara de ser atributo inerente à vida, ganhara espaços maiores no imaginário em todas suas complicações e extensões. Banalizar a morte é, em certo sentido, banalizar também aquele que a causa, e nisso encontramos uma saída para conviver com agentes de toda e qualquer espécie cada vez mais rotineiros física e emocionalmente em nossas vidas. Não vem de agora a vontade de rir das desgraças. Sua origem está na Macedônia, especificamente no movimento que tirou os cômicos da Grécia para que pudessem satirizar inclusive as tragédias. Nasce daí a tragicomédia e a capacidade em não mais se levar a sério o que quer que seja. Não rimos, hoje, especificamente, por questões estéticas, tampouco por necessidade de subtrair uma dor dilacerante ou uma ausência irremediável. A risada que se ouve é assistência a caricatura da realidade e de sua crueldade exposta. O problema é que, quanto mais rirmos de nossos piores acontecimentos, menos nos importaremos de fato com eles, ainda que haja sim na atitude de trazer-lhes humor o manifestar crítico de reconhecê-los fatos. Não se trata de não provocá-los. Mas de não vulgarizarmos, ao pior sentido do erro de nossa compreensão do vulgar, mas conseguirmos aplicar-lhe a acepção correta do termo. Aí sim, exposto ao comum das ações e da realidade, o riso se torna constrangido e precioso. Do contrário, rimos porque qualquer coisa serve às hienas.

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