DESCULPE, MAS ESTOU OCUPADO PRA VOCÊ
Por Ruy Filho
TENDA DRAMAMIX
17h00 – “Seqüestro relâmpago”, de Antonio Rocco
Direção: Antonio Rocco
Elenco: Alexandre Bamba e Mário Matias
Quem nunca recebeu telefonema de seqüestro relâmpago ou acidente de parente? Nesse instante, centenas estão aos telefones. Alguns desesperados, outros se divertindo com o absurdo da ligação. Sim, porque basta informar um dado sem sentido e toda a encenação se esvai. Cheguei, certa vez, a lançar no meu blog o concurso “Faça um preso sorrir”. São incontáveis as vezes que já me ligaram. E fomos ao ponto de conquistarmos tal nível de confiança que, caídos os disfarces, soube seus nomes, endereços prisionais, sentenças e crimes. A chantagem inicial para extorquir dinheiro virou pedido por cartões telefônicos. Isso mesmo, pedido. E por ser madrugada, ao consultar, foi o mesmo quem me aconselhara a não sair. É muito perigoso, argumentou. Daí o apelo para usar minha casa e esconder contrabando. E, por fim, a tentativa de me convencer a agendar outra ligação, na qual atenderia uma amiga minha disposta a satisfazê-los a libido, ainda que apenas pela voz. Nada aceitei. E o que ocorreu foi surpreendente. Desabafo, vozes embargadas. A quase meia hora daquele telefonema me apresenta a intimidade de homens monstruosos: assassinos, psicopatas, traficantes, estupradores. Quando não tudo isso de uma só vez. A ligação vinha de Bangu 2, e foi só após desligarmos, com a promessa de que poderiam voltar a me procurar se o contato se restringisse ao desabafo e trivial, que percebi o absurdo em si. Esse acostumar-se com a violência, feita algo inerente ao estado natural das coisas, é o grande perigo. Os crimes mais bizarros consomem o ser enquanto anulam qualquer pertinência aos valores formuladores da cidadania. Escrevo enquanto o Rio de Janeiro entre em guerra contra a força do tráfico, possível ela por ausência de políticas não corruptas. Entender a violência e o confronto a ela igualmente violento como única saída possível é perdemos a dimensão do humano. Destrói-se, rouba-se, mata-se sem culpa nesse que é o maior país católico do mundo. Então por que não nos sentimos culpados por deixarmos as coisas chegarem ao ponto em que estão? A peça apresenta indiretamente as questões e brinca com o assunto como se não houvesse outra possibilidade que não a de entendê-lo como irremediável. Típica observação da realidade, mas que serve apenas à manutenção e ao acostumar-se ao desumano.
3 comentários:
Isso que é ego: Três linhas para comentar a peça que leu de relance (e não entendeu) e um rosário para suas experiências pessoais. Estava muito ocupado consigo mesmo.KKK
kkk... Antonio Rocco
Antonio Rocco,
Entendi sua crítica à resenha. Ok. Poderia ter escrito mais, mas, de fato, relatei minha experiência, pois me pareceu mais própria ao discutir o que argumento ao final:que perdemos a dimensão do humano. O espetáculo tem seu propósito de trazer da situação o ridículo pelos caminhos do cômico. Essa opção é democraticamente uma escolha possível, mas assim também a é a desconfiança sobre esse olhar. A peça não foi julgada, ou a qualidade do texto, as interpretações. Apenas transitei da realidade para a ficção. Como terminei,e mais preocupado ao todo de nossos comportamentos do que ao espetáculo em si, o acostumar-se ao desumano e a aceitação de ser a criminalidade algo irremediável, assusta-me, sim.
Sobre seu comentário jocoso. Bom, a peça se apropria das vontades do criador, tanto quanto o resenhista. Isso também chama-se democracia.
Ruy Filho
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