É PRECISO CRER
Por Ruy Filho
ESPAÇO DOS PARLAPATÕES
02H00 – “Otimismo”, de Voltaire.
Adaptação e Direção: Ralph Maizza.
Elenco: Ricardo Gelli; Flávia Tápias; Didio Perini; Celso Melez; Mariana Blanski; Leandro Derrico; Tadeu Pinheiro e Walter “Batata” Figueiredo.
Um espetáculo que comporta no título indicações de que abordará o otimismo é, por si só, estimulante, independentemente do que ocorrerá em cena. Entender o otimismo na atualidade demanda muita boa intenção em encontrá-lo, época essa de desassossego e niilismo latente e, paradoxalmente, esperança e credulidade. Ganha camadas mais profundas quando se percebe que mesmo a esperança constrói-se a partir de julgamentos pessoais fundamentados pela crença própria contida no desejar ter esperança. Nada de fato sustenta os princípios de melhorias. Nem ao Homem, nem ao social. Mas é inerente ao ser humano desejar, e é nessa existência de um desejo que crer em algo reúne ciclicamente as vontades geradoras do tal otimismo. O melhor otimismo, todavia, é o não justificado. De outra forma, limitar-se-á a suprir vontades pessoais e não coletivas, distorcendo o otimismo em si ao servir apenas os ganhos pessoais, ainda que estes atuem negativamente aos demais. Se o otimismo, portanto, está condicionado ao desejo de algo, e este à crença sobro o algo desejado, então entender como a crença surge é fundamental. Normativo, o conceito de crença é governado por princípios de racionalidade localizados na lógica das razões, e surge como experiência através de impressões sensíveis no encontro entre o mundo e o sujeito, entendendo, ainda, o mundo como a totalidade de fatos que, por sua vez, nada mais é do que o olhar do sujeito sobre as verdades. Crença, portanto, é a resposta que damos ao mundo às verdades independentes de nossas concepções. Retratar o otimismo é construir um percurso de encontro a essas verdades, as crenças que as aceitam para daí encontrar seus desejos. Como, porém, permear esse trajeto se hoje nos vemos descrentes? A ausência de crenças determina mais do que o niilismo, vai além do fato de estabelecermos uma relação conseqüente com os fatos e o mundo, enquanto descaracteriza um dos princípios humanos, a inerente disposição ao desejo.
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