ESQUECER O DRAMA E A VIDA
Por Ruy Filho
TENDA DRAMAMIX
15h00 - "O que restou das flores", de Gustavo Gulart
Direção: Gustavo Gulart
Elenco: Gustavo Gulart e Carol Fernandes
As peças românticas que partem da história regressa de uma revelação falida são muitas no teatro brasileiro atual. O que inquieta, todavia, não é mais a escolha pela linguagem, mas a necessidade, cada vez mais explícita, de entender a falência mais do que o amor. À importância de um sentimento se contrapõe a necessidade de senti-lo. Pouco importa a envergadura alcançada no percurso. Está na amplitude e ambivalência do sofrimento posterior o real conhecimento da emoção. A falência expõe os princípios de cada um no trato com seus sentimentos, e quanto mais heterogêneo for o alcance desse falir maior o reconhecimento sobre a história dessa relação. Como se o que importasse não fosse o viver, e sim as conseqüências públicas traduzidas em sensações aceitáveis. Falir passa a ser importante, portanto. Expõe o lado humano das histórias vividas, no instante em que o acúmulo de histórias torna o viver mecanismo de substituição constante e necessário. O acúmulo de dramas românticos, por conseguinte, e suas discussões de relações revelam a falência do viver como atuação estabelecida entre nós. E aí cabe um paradoxo: como levar à cena a falência e não os encontros e desencontros de cada um? É possível tratar a falência como próprio tema ou estamos condenados a entendê-la psicanaliticamente, tendo seu regresso por identificador dos instrumentos que a causaram? Por se tratar de teatro e ser este condicionado à presença, o falir se aprisiona a ser contextualizado pelo seu passado. Não existe por si só, nem possui a capacidade de apontar futuros. Abordar o passado é o desafio primeiro, portanto, enquanto a falência das relações em si reside nas entrelinhas dos romances dramatizados. Ao mesmo o teatro ainda entende o viver como fundamental, já que as pessoas optaram pelo ignorar a vida e seguir na exaltação de suas perdas. O difícil está mesmo em dar consistência e sabor ao repetitivo. O palco, tão ocupado por tantos dramas, se preenche de previsibilidade, ainda que, por vezes, os atores consigam ir bem.
0 comentários:
Postar um comentário