domingo, 28 de novembro de 2010

Um beijo, fui!

MASTURBATÓRIO REPERTÓRIO
Por Ruy Filho

TENDA DRAMAMIX
03h00 – “Um Beijo, Fui!”, de Celso Cruz
Direção: Eduardo Chagas
Elenco: Carolina Angrisani, Fernanda Roman, Gabriela Cerqueira, Samira Lochter e Fabio Penna


A banalização do sexo em comédias é recorrente e cansativa, em certa medida. Em qualquer teatro, esquina ou programa televisivo lá está a sexualidade retratada entre contextos de pornografia e tara. No entanto, esquece-se de que o sexual remonta a uma das origens do teatro, à orgia dionisíaca que levou ao surgimento das tragédias e komades, festivais de comédia, quando personagens eram retratados de forma grotesca tendo, dentre outros artifícios, as características sexuais evidenciadas e caricaturadas por agigantamentos e exibicionismos. Porém, na Grécia antiga havia a pertinência de ser o sexo instrumento de discurso sobre as normas e regras. Com o passar dos séculos, o sexo passou a expor o ser em sua perspectiva libertária desprovido de qualquer necessidade de caricatura. Do naturalismo dos corpos ao corpo como exposição da identidade, chegou-se a Freud e a compreensão da nudez como desmacaramento da persona. Aos poucos, a representação do sexo perdeu qualquer outro intento que não o do constrangimento pornográfico. Sem camadas discursivas, a validade da intimidade faz da cena algo banal, afastando o sexo da origem do próprio teatro. Chega a constranger a ausência de interesse em se apropriar do sexo como instrumento de discurso, enquanto somos limitados à deficiente exposição de seus gestos típicos e vocabulários próprios. A intimidade não se alcança, ao fim, nem mesmo o constrangimento, se é que esse é sua intenção. Restando apenas a pornografia fingida mais pudica do que a imaginação de quem a presencia.

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