O TEMPO DO RETRATO
Por Ruy Filho
SATYROS 2
"O Tempo não para Minha Flor", de João Fábio Cabral
Direção: Tiago Moraes
Elenco: Diego Pincerati, Jéssica Drago, Laís Oliveira, Milena Martines, Rodrigo Dorado, Sâmia Abboadalla, Valmir Martins e William Albuquerque
Talvez o mais difícil seja retratar a si mesmo no palco. Sabor de redundância e certo tom de importância que parece só fazer sentido pra quem o faz, o teatro tem sido utilizado para construir retratos, auto-retratos e destratos. Está na exposição do ser uma das origens do drama burguês. Complica mais quando o retrato vai além do sujeito e pressupõe-se imagem de um grupo, de uma época, de contextos. E como dar conta, então? Toda época gera seus contextos que impõem seus grupos. A subjetividade do sujeito passa a ser representada em condições próprias dessas relações. E não é difícil que o jovem também se represente por esses vícios. O mais difícil é que ao jovem, alguns valores e densidades são outros. A juventude vivencia uma época ao tempo em que a constrói, diferentemente da infância que a serve e da maturidade que a assiste. O jovem pouco percebe seu próprio tempo, envolvido que está em sua própria manifestação. E isso he dá outro sentido de existir: explosivo em desejo e apaixonado pelo agora. Sem a percepção da época, como é possível determinar os contextos, portanto? A impossibilidade se reafirma na banalidade das escolhas superficiais e pelas inconseqüências das respostas. Resta-lhe o grupo. Aqueles que se identificam com certos valores, ainda que tais sentidos sejam circunstanciais e volúveis. Quando a juventude de hoje tenta retratar-se ela se perde nesse desvario de não compreender sua época e seus contextos. Perde-se em crítica sem enxergar a dimensão do entorno. E termina, quase sempre, gerando retratos caricatos deles mesmos. Porque não se reconhecem? Não. Pelo contrário. Apontam para um outro futuro que os não mais tão jovens estão incapacitados de enxergarem: a de que, passo a passo, o Homem se perde entre o descontrole de uma época não mais traduzível e seus contextos indecifráveis. Só resta a juventude retratar-se pelos discursos velhos dos mais velhos, enquanto a aparente maturidade dessas falas nada mais revela do que a ausência total de discursos próprios.
4 comentários:
Nossa arrebatador... não começa criticando assim, que não dá espaço para as crianças reclamarem!
vamos sempre em frente, querida.
hehehehehe... acho divertido!!!
hehehehe... que divertido!
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