sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O tempo não para minha flor

O TEMPO DO RETRATO
Por Ruy Filho

SATYROS 2
"O Tempo não para Minha Flor", de João Fábio Cabral
Direção: Tiago Moraes
Elenco: Diego Pincerati, Jéssica Drago, Laís Oliveira, Milena Martines, Rodrigo Dorado, Sâmia Abboadalla, Valmir Martins e William Albuquerque

Talvez o mais difícil seja retratar a si mesmo no palco. Sabor de redundância e certo tom de importância que parece só fazer sentido pra quem o faz, o teatro tem sido utilizado para construir retratos, auto-retratos e destratos. Está na exposição do ser uma das origens do drama burguês. Complica mais quando o retrato vai além do sujeito e pressupõe-se imagem de um grupo, de uma época, de contextos. E como dar conta, então? Toda época gera seus contextos que impõem seus grupos. A subjetividade do sujeito passa a ser representada em condições próprias dessas relações. E não é difícil que o jovem também se represente por esses vícios. O mais difícil é que ao jovem, alguns valores e densidades são outros. A juventude vivencia uma época ao tempo em que a constrói, diferentemente da infância que a serve e da maturidade que a assiste. O jovem pouco percebe seu próprio tempo, envolvido que está em sua própria manifestação. E isso he dá outro sentido de existir: explosivo em desejo e apaixonado pelo agora. Sem a percepção da época, como é possível determinar os contextos, portanto? A impossibilidade se reafirma na banalidade das escolhas superficiais e pelas inconseqüências das respostas. Resta-lhe o grupo. Aqueles que se identificam com certos valores, ainda que tais sentidos sejam circunstanciais e volúveis. Quando a juventude de hoje tenta retratar-se ela se perde nesse desvario de não compreender sua época e seus contextos. Perde-se em crítica sem enxergar a dimensão do entorno. E termina, quase sempre, gerando retratos caricatos deles mesmos. Porque não se reconhecem? Não. Pelo contrário. Apontam para um outro futuro que os não mais tão jovens estão incapacitados de enxergarem: a de que, passo a passo, o Homem se perde entre o descontrole de uma época não mais traduzível e seus contextos indecifráveis. Só resta a juventude retratar-se pelos discursos velhos dos mais velhos, enquanto a aparente maturidade dessas falas nada mais revela do que a ausência total de discursos próprios.

4 comentários:

luiza novaes disse...

Nossa arrebatador... não começa criticando assim, que não dá espaço para as crianças reclamarem!

Diálogos disse...

vamos sempre em frente, querida.

Tiago disse...

hehehehehe... acho divertido!!!

Tiago disse...

hehehehe... que divertido!