terça-feira, 30 de novembro de 2010

Doce Axioma

QUANDO A ADOLESCÊNCIA RESOLVE O PRECONCEITO E O CONCEITO
Por Ruy Filho

TENDA DRAMAMIX
01h00 – “Doce Axioma”, de Hugo Possolo
Direção: Claudinei Brandão
Elenco: Danton Mello, Camila Possolo, Jacqueline Obrigon e Janaína Enguel


A questão se dá por ser impossível escrever sobre o tema sem gerar discussões e ser superficial. Esse é o problema trazido por Hugo Possolo. Como falar agora sobre o aborto? São dois os problemas: primeiro que o tema desperta opiniões contrárias e todo mundo tem algo a dizer, mas poucos são capazes de ouvir as falas contrárias a suas crenças; segundo, porque nos últimos meses, polemizado com as declarações dos candidatos à presidência, o tema foi resenhado ao infinito por todos os ângulos. Então o que dizer? Que sou contra? A favor? É tão pouco se colocar frente ao aborto por esse sim ou não que seja a ser ridículo escrever sobre. É menos ainda tentar ir além de alguns textos geniais que circularam os jornais. Lembro-me de Antonio Cícero, na Folha de SP, destigmatizando a vida embrionária, citando cientistas e filósofos. E também Ponde, no mesmo jornal, contrariando o colega. Estava lá, pra quem quisesse perceber, no som da televisão virada apenas para as personagens, os discursos de Serra e Dilma sobre a questão que iniciaram esse debate pelo país. Entrou a igreja, chegou ao Vaticano, o Papa se intrometeu, candidatos recuaram e ambos passaram a freqüentar missas, ainda que a hóstia não fosse consagrada. Religiosos sim, mas nem tanto. Então pulou-se para as casas evangélicas, os cultos de congregação. Fé? Nunca. Voto. Mas não se trata disso o texto de Possolo. Trata do assunto de uma adolescente seduzida por seu professor de química e engravidada por ele. Trata da ingenuidade que se perde e a decepção da amiga com quem havia combinado realizar todas as etapas de descoberta da vida madura em uma espécie de cumplicidade juvenil, típica de quem ainda não descobrira que a vida vai além de planejamentos. E também não se trata disso. Caramba. Trata de um axioma! E que é isso, afinal? Fiquei menos decepcionado comigo mesmo ao ver as personagens se fazerem a mesma pergunta. Não por elas, mas porque era nítido que a platéia se questionava no mesmo silêncio. Quando veio a possibilidade da resposta, tudo caminhou bem. Um par de meia e sua comparação com os homens. E tudo fez sentido. Erro infinito, assim a menina define o homem. O aborto em si é tratado por outros caminhos. Possolo suaviza sem que seja ele a questão dramática. Ela engravida, a mãe médica a opera e tudo se resolve. Crises? Só as adolescentes. Aquelas que se reviram em vingança e prazer em vingar. O doce axioma de Possolo apresenta uma questão tornada essencial na sociedade brasileira. Dialoga com o presente, traz pra cena a rotina das discussões, sem qualquer banalidade ou supra-importância. Apenas traz colocando os atores para se divertir em cena, como lhe é característico, num ritmo frenético e cômico dos melhores. E sobre o aborto em si, acho que apenas as mulheres deveriam tratar o assunto. Mais não digo.

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