QUASE POLITICAMENTE CORRETO
Por Ruy Filho
TENDA DRAMAMIX
14h00 – Teoria da Conspiração, de Paula Chagas
Direção: Rafael Gomes
Elenco: Cláudia Apóstolo e Mayara Constantino
Texto leve, cena curta e nem por isso fácil. Porque é preciso estar atento aos personagens políticos da história recente para entender as implicações que levaram Ronald Regan a se esconder sobre a figura de Fidel Castro casado com Margareth Thatcher, Renan Calheiros que na verdade é PC Farias ou Marta Suplicy que oculta Zélia Cardoso. Há mais no joguete infantil do troca-troca entre as figuras. A tentativa de elucidar a confusa aparência política e as artimanhas pelo poder de alguns personagens centrais. Será que algumas das poucas pessoas na platéia estavam atentas à provocação? Menos pelo teatro e mais por desinteresse em política, possivelmente. Vive-se tão alienado da história e seus agentes que é capaz de alguns se perguntarem sobre um e outro dos citados na trama. Se o público se mantém alienado em vida, também os artistas se abstêm de envolvimentos mais responsáveis sobre o discurso politizado. O que se encontra como processo dessa relação é a ideologização partidarista que faz da criação plataforma de propaganda com intuito claro de ganho ao final do processo. Teoria da Conspiração parece rir disso também. Expõe o ridículo das abordagens politizadas no teatro atual, em tom patético de descoberta infantil dos processos de manipulação exercido pelo poder. A cena é curta, realmente. Mas a provocação traz nela o que pensar. Um dos primeiros aspectos é tentar entender que a política pode e de ser compreendida de maneira mais ampla. Tende-se a entender a política como manifestação isolada cujas ações se referem ao conjunto. Mas desde a década de 1970 a política recebeu outros atrativos junto ao próprio ser, ao seu corpo, e passou a interpretar o ser como também atributo de manifestação política. É preciso voltar ainda mais, meados do século 17, quando encontraremos a morte e a vida como estrutura de soberania de poder, entre aquele que controla e o que se submete ao poder de forma extrativa e negativa. Com a mudança vetorial entre deixar viver para fazer viver, o indivíduo tem ao seu serviço o poder em forma de estrutura para sua existência, pois, diferentemente dos séculos passados, onde o Estado defendia-se do indivíduo, agora, ele necessita deste para se fortalecer. Essas transformações conduzem a uma nova concepção de política denominada por biopolítica. Ou seja, o corpo, a capacidade de trabalho e desenvolvimento da ação humana, leva o sistema a ser sempre favorável à vida por motivos óbvios, propondo a própria vida política do sujeito como manifestação, para dela compor outra construção da identidade social, compreendendo ainda a participatividade excludente na formulação de comunidades como um processo autoorganizador, e a reintrodução do todo na individualização da criação. Esse processo também se aplica ao teatro e ao fazer teatral. Também deve e pode a cena trazer para si as observações biopolíticas, sobretudo porque o teatro permeia o corpo como recriação da identidade, individualiza a criação ao criador enquanto gera certo paralelo a pluralidade no reconhecimento de sua construção. A essa comunidade formada pelo espelhamento com o público surge a identidade social em diálogo aberto, e nessa dialética a capacidade de traduzir discursos pessoais ao pensamento mais amplo. A cena é curta, insisto. E pretende politizar a ignorância histórica e o desinteresse da platéia. E fica apenas nisso. Não avança nos trocadilhos, não descorre por uma nova representação da política e não entende os seus próprios motivos. Fica faltando mais tempo ou mais ousadia em enxergar além das manchetes dos jornais.
1 comentários:
Olá, Ruy: Obrigada pelo tempo de reflexão dispensado à minha breve cena. De fato, ela é curta, era mais uma pequena esquete, mas o seu olhar me fez ver que ela poderia ter tido mais fôlego. Participei de todos os Dramamix e confesso que essa idéia de diálogo que vocês tiveram dá outra dimensão ao trabalho e vontade de caprichar mais no próximo.
Beijo, Paula.
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