PELO INTERNOFE, A INDECÊNCIA DO EXISTIR BRASILEIRO
Por Ruy Filho
TENDA CENAMIX
“Censual”, de Otávio Martins
Direção: Alain Fresnot
Elenco: Valentina Lattuada e Felipe Sant´Angelo
Tantas são as maneiras de abordar o Brasil de modo crítico, e tantas são igualmente as que se repetem em trejeitos supostamente políticos e culturais, que não se espera muito de um discurso sobre isso. Porque não é nada simples conseguir lidar com a multiplicidade de dados e questões que compõem o objeto, tornando a escolha desafio perdido já no próprio momento de escolha. Uma nação se faz no instante em que reconhecemos um território comum e a presença do povo como sujeito social. E para isso é preciso de fato utilizar-se de mecanismos de reconhecimento, como o censo, por exemplo. Em Censual, a origem do discurso crítico está na ação da pesquisa realizada de porta em porta, como um novo descobrimento do país. Ácido, voraz, fundamental, Otávio Martins cria uma representação banalizada do brasileiro, desclassificando o sujeito social e desmistificando os governantes. Não sobre nada. Um povo imbecilizado a ocupar os pastos-nação em forma de gado conduzido e açoitado; um cidadão imbecilizado por sua ignorância passiva histórica e seu hedonismo latente que reafirma o corpo como matéria única de satisfação; um governo hipócrita e mascarado em cinismo sobre seus governados. Há muito de culpa em sermos brasileiros se tivermos coragem em percebermos o que os brasileiros se tornaram. Foi impossível não sair da tenda se sentindo verdadeiramente um idiota. E isso foi muito bom.
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