SUFOCAMENTO EM PRESENÇA
Por Ruy Filho
TENDA DRAMAMIX
16h00 – “Grito Silencioso”, de Clóvys Torres
Direção: Clóvys Torres e Gabriela Alves
Elenco: Fafi Siqueira e Bruno Fagundes
Onde acaba a proteção de um a outro e começa a propriedade de um sobre o outro? E como se desprender da posse daquele que se quer proteger? A intencionalidade assumida do gesto protetor leva a invadir mais do que a independência de alguém. Avança para seu próprio existir ao anular escolhas, sejam voas ou destrutivas. Mas não é um direito do Homem se destruir, se assim o quiser? Cabem aí termos complicados como suicídio, eutanásia e outros tantos não menos óbvios, como o uso de drogas lícitas e não, por exemplo. A confusão entre proteger e propriedade perpassa pela educação de ambos os pólos, tanto para entender os limites sobre os outros, quanto para ser responsável por suas escolhas e conseqüências. Parece simples enxergar que a propriedade tem seus méritos na construção da proteção, sobretudo ao acrescermos as relações afetivas por tal conclusão. Surge problematizadora a falta de respeito generalizada e contundente entre as gerações mais recentes. Denomino respeito não apenas sua interface relacional, mas também a compreensão de certas hierarquias necessárias ao convívio amplo. Políticas recentes como a proibição de circulação de menores, após certos horários, em ambientes públicos, e a retenção de jovens fugidios das salas de aula identificam dois ângulos potencialmente destrutivos: a intromissão política do Estado nas escolhas individuais, criminalizando diferenças, e a incapacidade hierárquica dos pais em sustar o respeito que, então, necessita de intervenções externas para organizar o que deveriam ser opções particulares. De casa para a rua, desta ao todo, abrimos brecha ao sistema para que invada de forma categórica nossas decisões. Tornamos o Estado proprietário e não mais protetor de nossos direitos, lidando com isso como se fosse único caminho possível. Só que a contra-resposta tem se mostrada ao contrário do objetivo. O que se vê são fugas cada vez mais incontroladas das regras, ostentadas em ações cada vez mais desproporcionais ao convívio social, e a negação efetiva do respeito e das relações.
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