VESTIDA DE NUDEZ
Por Ruy Filho
TENDA DRAMAMIX
20H00 – “Vestido Longo”, de Marcelino Freire
Direção: Leandro Goddinho
Elenco: Mawusi Tulani
A perspectiva de inclusão àquele que não possui horizonte se limita ao essencial, ao básico necessário para sobreviver entre os desafios em boa parte intransponíveis. Resta encontrar nas sobras algo que substitua a falta e não o não tido. Sonhar não como devaneio mas como encontro entre o nada e a possibilidade. O sonho veste a ausência e não a falta. Esta exige concretude, sonhar atinge expectativas diferentes do objeto e posse, alcança a representação de si mesmo idealizada na plenitude do imaginário. Quando não se tem nada, sonhar deixa de ser sobra e passa a permear a necessidade do real. O teatro potencializa o sonho como matéria acessando essas necessidades de infinitas maneiras. Mas, quando ao sonho é dada a voz de crítica social sem apologia ideológica, tudo se contraria de forma orgânica e inquietante. A ausência do mínimo, nesse caso as próprias vestes, metaforiza a máscara do construir personagem, a quarta parede a ignorar a platéia, as nuances da encenação e sua maquiagem estética, e faz do discurso um anti-manifesto sobre a eficiência do sonho. Não genericamente do sonho, mas daquele que busca solucionar a ausência absoluta da sociedade na construção de cada um. Marcelino despe sua personagem ao vesti-la. E essa contradição é essência do que poderíamos denominar por teatro.
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