Por Ruy Filho
Quando o teatro se descobre palavra sobre o papel
projeto Ouvir Contrar, leituras dramáticas
Análise a partir da dramaturgia.
“Cinco”, de Alex Araújo
Cinco faz uma espécie de inventariado das mazelas rotineiras na vida contemporânea. Pula de um abandono para uma amante, vai da morte à gravidez inesperada, em uma agilidade que em cena se revela necessária a segundos, apenas, ou poucas linhas de falas cruzadas. O conforto do texto surge na própria exposição de sua estrutura. Separado em colunas próprias, os personagens são apresentado agrupados a cada parágrafo. É como se habitassem o mesmo tempo da ação que só pode ser representada de maneira estruturada e figurativa, já que a escrita se limita a uma apresentação por vez. Em Cinco a mecânica da escrita determina o espetáculo e isso conduz a leitura a uma perfeita observação de como poderá ser realizado. Diagramado de forma eficaz, inteligente nas diferenciações entre silêncios e ausências, os personagens não podem ser abandonados, pois, enquanto lemos os espaços vazios que os comportavam inicialmente, relembramos suas existências e influências dentro do drama. São poucos os dramaturgos que entendem a diagramação como condição signa da palavra e esta como interferência de observações sobre o papel-palco. Ainda que a história seja próxima a tantas outras, a maneira como é apresentada ao leitor traz um saboroso encontro com suas personagens.
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