sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Como ser uma pessoa pior

Por Ruy Filho
Ninguém é pior que o artista


ESPAÇO DOS PARLAPATÕES
“Como ser uma Pessoa Pior”, de Germano Mello e Michelle Ferreira
Direção: Mário Bortolotto
Elenco: Lulu Pavarin


O próprio título já dá uma idéia do que virá durante o espetáculo. Aos poucos, outras sugestões de temas se esbarram, e falar sobre tudo seria um enorme desafio. Optei por três pontos especificamente que, de alguma maneira, sinto que dialogam com o propósito do que se mostra no palco. Começarei pelo argumento inicial trazido por Lulu: a dependência do outro. Se, durante a passagem do século xix para o xx, a descrença e o niilismo sobre a humanidade poderiam ser identificados como a doença de sua época, após o desenvolvimento da psicanálise, a depressão talvez seja a representante do século xx, ainda que permaneçam de forma brutal nos dias atuais. Em ambos os casos, no entanto, há o isolamento do sujeito do convívio, a partir de seu próprio centro. É ele que se afasta para fora da realidade (na depressão) e para fora do ambiente social (descrença), trancando-se em mundos próprios, desprovidos de quaisquer necessidades de relações. São diferentes em recusa, todavia. O chamado mal de fim de século, a percepção de que o homem caminhava para sua destruição em níveis amplos e incontroláveis, levou à toda sorte de literatura onde o princípio heróico se reconfigurou na imagem do anti-herói. Agora, o homem precisava agir valendo-se da capacidade de não pertencer a nada ou construir coisa alguma. O anti-herói não é um conquistador clássico, mas um destruidor que utiliza de sua consciência sobre a realidade para antecipar o inevitável e o óbvio do horror humano, como em muitas das personagens apresentadas por Dostoievski, por exemplo, ainda que esse imaginário possa ser encontrado em artistas do século xviii, como Goya, entre outros. Já o personagem depressivo, tal qual a figura de Virgínia Woolf, isola-se em seu não pertencimento enquanto busca suprir o outro pela reflexão sobre sua substancial diferença. Não se trata mais de recriar a idéia de um herói ou nega-la, mas olhar para si como única possibilidade de compreensão racional sobre o que quer que seja. Aos poucos, essa primeira década do novo século redefine nossa doença. A necessidade do outro parece dominar as necessidades de sobrevivência de maneiras mais cruéis e objetivas. Somos igualmente capazes de nos isolarmos da sociedade, porém não mais de substituí-la, já que a virtualidade possibilita sua resignificação em contextos participativos de maneiras antes não imaginadas. Só que agora se pode não pertencer estando dentro, negar o mundo real enquanto o assume idealizado em comunidades e relações virtuais, nas quais se abre mão da identidade (não reconhecível por si mesmo na normalidade das coisas) para recriá-la idealizada e passível de pertencimento. Igualmente modificada, a depressão isola o ser não mais apenas ao seu íntimo, mas ao íntimo de uma idealização substitutiva capaz de lhe oferecer menos uma solução, e sim o encontro consigo próprio, aceitando suas condições sem julgamentos e curas. Nos dois casos percebe-se, então, o outro como fio de reencontro pessoal e com o ambiente social. Aos poucos, a relação se estabelece imperativa e ter o outro justifica o próprio existir. A dependência surge imperceptível como qualquer outra, inaceitável, porém, evidente aos olhares alheios. Se por um lado a doença atual não isola o indivíduo, por outro, destrói seus traços de identidade. E é nesse ponto que precisamos avançar um pouco mais para dentro do espetáculo. Qual a esperança de realização ao sujeito dependente de outro quando reconhece sua dependência? Pouca. Ou quase nula se se mantiver isolado. O sufocamento inevitável sobre o outro trará à relação desgastes e culpas, onde o dependente se verá traído e abandonado, enquanto o outro, explorado e aprisionado. A saída encontrada pela personagem é tornar-se uma pessoa pior, o que, na prática, significa ampliar sua egolatria, destilar seu egoísmo sempre a seu favor, impor-se aos demais sem princípios morais e reagir antes mesmo de qualquer ação. Ser pior, então, pode ser entendido como uma caricatura do ‘cuidar da própria vida’, transformada em uma espécie de vingança com intuito de fazer valer sua independência e individualidade, ainda que seja, ao fim, a demonstração mais clara da necessidade de ser enxergada pelo outro. E não se trata disso a tal doença contemporânea? Provar aos outros as capacidades pessoais que nada se referem a eles? Não estamos mais preocupados em vencermos e sermos aceitos do que necessariamente sermos nós mesmos? A ampliação da imagem do sujeito fez com que todos nos tornássemos dependentes de algum outro, seja ele um rosto, um sistema, um mecanismo, um produto, ao passo que a dependência pode ser traduzida por reconhecimento. Se somos reconhecidos como ‘xis’ aceitamos nosso próprio existir, pois somente nesse reconhecimento somos capazes de nos espelhar. ‘Como ser uma pessoa pior’, fala do óbvio, portanto. Do fato de que nos tornamos dependentes múltiplos de outros, ao tempo em que explicita o cinismo em não aceita-lo fato. E, então, chegamos ao terceiro ponto. Não é próprio do ator e da arte essa dependência? O que é o teatro senão alguém que apresenta algo a alguém em algum lugar? Palco ou rua, retórico ou simbólico, realista ou imagético, comercial ou experimental... Tanto faz. Do lado de lá está alguém que torna o seu espaço outro, que parte da realidade de seu corpo a construção de um outro ser, que faz de seu discurso a voz do que reconhecemos e preferimos não ouvir. E não seria isso igualmente mais uma tentativa de exigir do outro sua presença para que o sentido do existir se dê? Não seria a arte o assumir o não pertencimento à ordem dominante, exigindo do artista a necessidade de recriá-la como instrumento de sobrevivência? E não seria um isolamento em si mesmo, buscando no mais profundo de suas escuridões, o próprio movimento da criação? Nada pode tornar o indivíduo ainda pior do que o nível de exposição que a arte exige, por requer que exponha suas dores ao invés de fechar-se em depressões supostamente suportáveis, por impor que retrate publicamente seu não pertencimento, obrigando o isolamento a dar-se em frente ao público. O artista não tem a chance de não criar, de se fechar e de se isolar. Um artista não tem a chance de sobreviver sem o outro. E por isso, nada mais coerente, o artista perceber que, sim, ele é a pior das pessoas. É aquele que pode ser o desagradável e o incorreto. ‘Como ser um artista pior’ é uma enorme, ridícula e hilariante redundância do que é ser artista. Pena que para o público só sobre a piada. Aceitar interpretar a tudo isso é mais do que subir ao palco, é dialogar com a própria ignorância do que significa o artista e sua tradução nos dias atuais, e Lulu encara de peito aberto e paixão. Quisera o mundo soubesse reconhecer no artista o que nele há de pior de si mesmo. Aí, talvez, um dia seremos melhor compreendidos e não mais necessários.

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