quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A estrela do absinto

Por Ruy Filho
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TENDA CENAMIX
“A Estrela do Absinto”
Direção: Fabrício Castro


Envelhemos nós ou seria o mundo que jamais amadurece a nossa volta? Como determinar dentro desses limites impostos pelo tempo e corpo a relação entre a calmaria própria de um cansaço e o desejo, agora relativizado e circunstancial? A preocupação da juventude eterna, da libido infinita, do desejar ininterrupto frustra a verdade dos corpos que se entregam, cada vez mais, à construção daquilo que lhes falta. Mas será mesmo que se trata de faltar algo? Ou seria a industrialização do desejo tão manipulada pelas indústrias e seus consumos que perdemos a percepção do tempo de cada coisa? O desejo pode ser substituído quimicamente e representado em farsa de vontade para assim satisfazer o corpo a quem se oferece e à consciência de quem se sente na obrigação de desejar. Não que isso seja errado. Muitos recorrem aos medicamentos para dar continuidade a sua libido porque necessitam desta para manter a imagem que projeta de si mesmo, seja como homem, seja como indivíduo, já que, em nossa sociedade, ser homem se confunde a idéia demonstrativa de resultados sexuais, físicos e intelectuais. Portanto, nada há de errado ao sujeito que utiliza de outros artifícios. Outrora eram as fantasias submetidas às vadias anônimas das calçadas ou às moças desafiadoramente provocantes. Hoje são pílulas de diversas cores. E tudo bem. O que não está bem, todavia, é a imposição da permanência do desejo pela satisfação do outro e não de si. Entupir-se de químicas para satisfazer a imagem que o outro projeta enquanto não se trata mais da incapacidade em satisfazer, mas na escolha e compreensão do fim dessa vontade. Cada vez, em todas as idades, o homem se vê aprisionado pela obrigatoriedade do desejo eminente. O que surgiu medicamento transformara-se em obrigação e obsessão. Aos poucos, a libido, a verdade, o desejo e a essência que leva os corpos a se encontrarem se perdem em caricaturas da obrigatoriedade. O problema é que não há pílulas, ainda, capazes de nos fazer acreditar em amor.

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