terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Giz

Por Ruy Filho
Não há por onde solucionar um desejo

projeto Ouvir Contrar, leituras dramáticas
Análise a partir da dramaturgia.

“Giz”, de Maria Shu

Entre o pecado do desejo e o desejo pelo pecado há uma tênue linha qual mal separa as fronteiras. E pecar e desejar se confundem como iguais. Tal pensamento não se desenha nos dias de hoje, mas está, de alguma maneira, confundido em nossa subjetividade e na maneira como lidamos com ambos os princípios. Fora Santo Agostinho quem determinou inicialmente a confusão ao desenhar seu argumento sobre o pecado original, a desobediência de Adão e Eva ao comerem do fruto proibido. Trazemos, segundo o filósofo, o pecado original na descendência direta que somos dos primeiros pecadores, revelada em nossas ações na manutenção de certa vontade distorcida, a interpretação errática no uso de nosso livre-arbítrio, conduzindo-nos ao pecado e a culpa. Entre o desejar a plenitude da existência e, por conseguinte, liberdade, surge o pecado, então, como manifestação de vontade. E é a existência da fragilidade de nossas vontades que nos reconduz ao pecar. Se certo, o que Agostinho revela é que todo e qualquer desejo, em sua instância isolada de sentimento, faz de nós pecadores. A estrutura desse argumento problematiza mais a humanidade em si do que propriamente a subjetividade que a constrói, já que o pecado original se faz corpóreo e inerente ao não querer pecar. De lá pra cá, do século 14 ao 21, redescobrimos o corpo como condições múltiplas de manifestações, e a subjetividade se revelou mais pertinente ao princípio determinante ao sujeito do que seu contrário. Portanto, não pecamos por sermos filhos de Adão, mas porque está na própria condição humana o desejar. O pecar é algo intrínseco ao instinto humano. E talvez por isso, o desejo, muitas vezes, são surpreendentes, incontroláveis e absolutos. Há, ainda, outro atributo colado ao desejo: sua temporalidade distorcida. Desejamos apenas aquilo que idealizamos, seja positiva ou negativamente, no instinto que possuímos de igualmente construir e destruir inclusive a nós próprios. Isso torna o desejo limitado a capacidade imaginativa do sujeito. Não se deseja o que não se imagina, entendendo imaginar como a capacidade de formar imagens reais a partir do reconhecimento de sua possibilidade. Desejar o pecado, portanto, seria destituir o pecado de nós, estável e codificado, ao ponto de podermos trazê-lo imagem, quando assim quiséssemos. Mas o pecado não se limita a uma ação, vai aos sentimentos, às sensações, e essas são intangíveis e impossíveis de serem representadas em imagens, comprovando que pode haver sim pecados não surgidos em desejos, naturais em vontades e, por vezes, independentes a elas. Sobra o pecado do desejo como manifestação mais pertinente à construção da culpa em nossa subjetividade. Se Agostinho tratou pela ação da desobediência, hoje podemos compreendê-lo como o desobedecer a ação, seja ela comportamental, seja final, ou mesmo emocional. A ação, tal qual é julgada por quem a observa, é lida sobre óticas de preconceito, regras, leis etc., e desobedecer significa fugir ao que lhe é determinado, não mais pela vontade ou pelo desejo, mas pelos valores acordados pela comunidade. Giz, título da peça e nome da personagem, enfrenta esse dilema. Peca ao desobedecer a ordem para manifestar seu desejo pelo outro, e como pecadora é punida, como se espera dentre as leis sociais. Contudo, quem disse que o desejo é capaz de seguir regras? O texto instiga e provoca em estrutura e solidez. Ainda que se reconheça as metáforas, elas se arranjam curiosamente bem.

3 comentários:

luiza novaes disse...

"Nunca mais romance, nunca mais cinema, nunca mais filme no dance, num mais cheese, nunca uma esplunca, numa rosa nunca, nunca mais feliz!"

bjs querido...

Anônimo disse...

Oi, Ruy!

Grata pela resenha!

Um abraço
Maria Shu (Oprah..rs)

Aninha Terra disse...

Gostei da resenha, fiquei refletindo sobre as metáforas e esse arranjo feito pela Maria Shu...