quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Pastas suspensas

JUSTIÇA SEJA FEITA: INTELIGÊNCIA FAZ BEM PARA A ARTE SIM!
Por Ruy Filho


TENDA DRAMAMIX
01h00 – “Pastas suspensas”, de Bráulio Mantovani

Direção: Laís Bodanzky
Elenco: Roneu Fachini, Gustavo Machado, Paula Cohen e Fabiana Gugli

A trama começa confusa. Propositadamente confusa. Primeiro um, depois outro e outro. Aos poucos os personagens surgem e ocupam a cena com intenções precisas, mas nem por isso menos enigmáticas. Ao decorrer dos conflitos, chega-se ao ápice: uma ampla e esquisitíssima discussão entre lei, polícia e justiça. E algo surge deste emaranhado com tamanha pertinência que nos faz ser capazes de compreender tudo. E muito se diz. A maneira como se dá a supremacia da justiça sobre a polícia e a lei é, sem dúvida, a discussão mais interessante que já presenciei no teatro brasileiro. E muito me vem. Lembrei-me de Rawls e suas teorias sobre a justiça. O jurista definia a justiça com a primeira virtude das instituições sociais, entendo tais instituições como uma associação autossuficiente de pessoas cooperadas para proveito mútuo. Ou melhor, a própria sociedade. Até aí, tudo bem. A problemática rawlseliana ganha dimensões ao determinar que o pertencer a uma sociedade não é voluntário, cabendo a ela o poder coercivo para proteção dos direitos. O teórico ainda diferenciava a sociedade da qual pertencemos da sociedade política, leia-se Estado, já que este se determina por um território geográfico definido. No espetáculo, a justiça imposta aos outros mecanismos, dialoga com os poderes de tantas outras maneiras. Conduz a relação entre polícia e lei a um enfraquecimento de ambas, compreendendo suas limitações morais e funcionais, seus direcionamentos estratégicos e circunstanciais. Rawls vai adentrar também as condições morais e determinar a eles os princípios fundamentais da justiça para chegar à questão da reciprocidade como observação de liberdade e equalidade. Mas isso não é suficiente, pois é fato que a reciprocidade é condicionada a nossos vínculos afetivos, limitando nossos conhecimentos sobre as reinvindicações, gerando o que chamou por estado de ignorância. É da descoberta dessa ignorância, não no sentido de ignorar o outro mas de desconhecer sua afetividade ao sistema e, portanto, sua capacidade de reciprocidade, que os personagens debatem. A polícia atua perante sua presença de poder direto sobre a liberdade, o tal poder de polícia que, em última instância, todos somos possuidores, mas que na realidade não se efetiva frente nosso estado de ignorância. A lei, doravante ao desejo de organização comum da comunidade a qual serve, subverte o sistema e subjulga seu existir às suas vontades, contrariamente ao que deveria ser: servi-la como resultante de reciprocidade. Resta à justiça equalizar ambas de maneira distanciada, condenando as distorções das leis e o abuso da polícia. A justiça se revela o fio de revisão dos outros poderes. A isso, o teórico vai chamar por simpatia imparcial, cujo princípio maior é determinar o tal senso de justiça, formado pela liberdade política que, por sua vez, é a soma das manifestações entre a liberdade de consciência e de associação. Aceitar as diferenças, o princípio da diferença, segundo sua literatura, pressupõe compreender a sociedade como utopia reconhecendo seu pluralismo e diversidade, e a não semelhança entre os integrantes de uma mesma comunidade. A cena apresentada no Satyrianas dialogava com esse arcabouço teórico do direito recente, sem qualquer tentativa de ser didático ou demonstrativo. Dialogava pela observação correta entre as três instâncias desenvolvendo uma trama onde os poderes interagiam por disputa de informação e dominação, enquanto a observação exterior detinha, de fato, o reconhecimento de seus limites. Para ficarmos, ainda, na esfera do direto, Luhmann vai trabalhar sobre a incomunicabilidade entre os sistemas. Prediz que os sistemas se limitam a seus universos, apesar de compreender que a complexidade sistêmica comprova que a contaminação determine o surgimento de terceiros. Para ele, tudo o que conhecemos está de algum modo fundado nos meios de comunicação. E a comunicação entre os meios é protegida em sistemas isolados entre si. Essa incomunicabilidade é fundamento do espetáculo. Não desta maneira, pois o que parece ser incomunicável, na verdade comunica na ausência de informações chaves. Sobram referências do tipo ‘você sabe’, ‘aquilo que você sabe que sabe’, ‘você sabe aquilo que você sabe que sabe”, ou coisas do gênero (a poética de Bráulio Mantovani é infinitamente superior a essa redução usada para o exemplo). Portanto, inverte a compreensão de Luhmann da incomunicabilidade entre os sistemas, dialogando lei, polícia e justiça pela ausência de representação direta de seus discursos. Fala-se não seus próprios dizeres. Falam os personagens aquilo que o outro não precisa falar. E surge um labirinto impressionante de possibilidades, de vácuos aritméticos. É impossível sair do espetáculo sem se divertir muito, sem se apaixonar por todos os atores, sobretudo o antagonismo narrativo e estético entre Paula Cohen e Fabiana Gugli e força feminina de suas figuras, e sem que a cabeça esteja tomada por reflexões. Teatro verdadeiramente. Desses que surgem de vez em quando, para nos lembrar do que vale a pena.

13 comentários:

Anônimo disse...

Bráulio é realmente genial.
Gostaria de saber se vocês irão colocar as críticas das outras nove montagens do DramaMix.

Grato.

Diálogos disse...

Olá, tivemos alguns problemas em acompanhar todas as cenas, por conta dos atrasos e tudo o mais. Muitas vezes perdíamos uma peça aqui outra acolá.
Minha proposta para o satyros é que me envie os textos para que possamos distribuí-los pelos resenhistas e então escrevermos.
Estamos no aguardo disso.
A idéia é dar algum retorno sim.

abraços
RUY FILHO

PS: acho que pode adiantar também se vc pedir para me enviar o teu texto. acredito que a equipe do satyros esteja esgotada e trabalhando na pós-produção. é difícil nessas horas lembrar de tudo...

Anônimo disse...

O blog poderia divulgar os nomes das peças não avaliadas não é?

Diálogos disse...

Sim. Essa é uma ótima idéia. Vou repassar a lista para os Satyros. Se não conseguirem me enviar os textos até amanhã à noite, então coloco a lista aqui. Aí fica para cada autor o interesse em enviá-las ou não.

Perfeito.
Obrigado

Ruy Filho

Anônimo disse...

Eu odiei este espetáculo e não concordo com nenhuma palavra do que foi escrito aqui.

João Mendes
joao_mendes@yahoo.com.br

Diálogos disse...

João Mendes,

queria agradecer por ter colocado seu nome. Tem sido raro nas discordâncias do blog. Bacana...

Anônimo disse...

Vi por aqui que vc tb se aventura a dirigir teatro e a escrever tb... Vc não acha anti-ético criticar colegas de profissão? Não entendo um crítico que se diz artista, isso me soa amargura, insegurança, vontade de ser aceito. Ou se produz ou se critica.

João Mendes

Diálogos disse...

oi João Mendes,

Essa questão é bem complexa e sempre dá pano pra manga.
Não acho que o fato de eu fazer teatro invalida o exercício da crítica. Ao contrário. O Nestróvski é compositor e um dos mais importantes críticos de música erudita do país, além de ser o diretor da Osesp. Ferreira Gullar escrever sobre a escrita de outros e é o poeta que é. E poderíamos ficar buscando dezenas de outros exemplos, entre vivos e históricos.
A questão é que, quase sempre, quando um olhar específico é necessário, dentro de qualquer profissão e também na arte, convida-se os pares para estabelecer um diálogo.
Quantos artistas plásticos foram ouvidos com seus olhares críticos sobre as obras da bienal, quantos cineastas durante a mostra internacional de cinema... e por aí vai.
Sim, faço teatro. Portanto trago em minha crítica um ponto de vista e não uma verdade sobre como se deve fazer teatro. E nada mais.

Ruy Filho

Anônimo disse...

ah, tá, entendi, vc está se comparando com ninguém mais ninguém menos do que Ferreira Gullar... Desculpe, é tão ingênuo que só me resta rir hahahhahahahhahaha

JM

Diálogos disse...

rir é sempre uma solução encantadora para não escutar. e é um direito também. então guardo seu riso comigo. sem problema.

não me comparei ao Ferreira Gullar, apenas com o fato dele ser criador e comentar sobre a criação de outros. Há graus em tudo e para todos. Mas a condição de caminhar pelos dois lados simultaneamente, isso sim é igual.

Você, com certeza, já deve ter lido as críticas que ele e Haroldo de Campos trocavam publicamente, um sobre a obra do outro, pelos jornais. É um ótimo aprendizado de como o pensar a linguagem artística representa uma percepção sobre o homem e o mundo, e como essa mesma percepção se formaliza em discursos que só se realizam quando expostos e confrontados. Alí estava a diferença entre os concretos (HA) e neo-concretos (FG). Ambos validavam suas percepções sobre a manifestação da arte a partir do confronto com as visões antagônicas.

Não sou Haroldo nem Gullar. Infelizmente para mim. Não sou Nestrovski, que também citei. Sou apenas um cara que olha para a arte buscando nela uma percepção mais profunda sobre seu fazer e sua relevância, a partir das minhas crenças sobre o homem e o mundo.

Se esse diálogo não serve ao outro, seja em forma de questionamento ou aprovação, isso não me leva a desacreditar no que penso. Ao contrário, apenas destila ainda mais qual o ambiente onde existo. Agora, se dialoga, então podemos juntos ir mais profundamente aos nossos interesses.

Criar, portanto, não difere para mim da observação sobre o fazer além de minha própria criação. Isso deixou de ser comum na cultura brasileira. O que é uma pena. Desenvolvemos o entendimento mercadológico de ser a crítica algo eticamente possível se, e somente se, distanciada e neutra. Mas como pode ser a crítica algo distante e neutro se lhe cabe confrontar percepções?

Essa imposição dos artistas não serem 'críticos', quando levada ao extremo, gera paradoxos mais complicados. Afinal, não vejo ninguém discutir com as comissões de prêmios, bancadas de editais, consultorias de financiamento, ainda que saibamos (até porque sempre são anunciados) que muitos artistas participam oferecendo seus olhares críticos. Mas aí teremos que negar o mercado, não é mesmo? O mercado de distribuição de recursos, os sistemas de paternalismos, os intrumentos protecionistas.

Enfim, só veria problema em criticar oficialmente se não permitisse igualmente ser oficialmente criticado.

Ruy Filho

MARCELLO disse...

JM tá a fim de boicotar o resenhista em questão?? rs. Mas é por medo ou inveja? Conta aí!!
Podemos citar então um exemplo mais atual e freco, como a Gabriela Melão (que cria e critica, não?) E aí?? Ela pode, já que só sabe falar bem dos amiguinhos e de elevar aos céus o deus Antunes?
Assim fica fácil, meus queridos!
O ponto é que os artistas de hoje se desacostumaram a receber críticas de verdade. Querem estrelas caindo nas páginas e só.
Penso que este processo todo, sugerido aqui por este blog, só tem a melhorar a qualidade dos trabalhos e dos artistas!
Evoé e tomem conta, moçada!
Barulho, pelo visto, vcs já fizeram!
Marcello K.

Anônimo disse...

é, fizeram um barulhinho de 11 comentários... 12 com o meu para elevar o ibope...

Sabe do peixe, que morre pela boca? Então... Vocês estão mexendo em vespeiro... Não durarão muito, muito menos chegarão ao mainstream...

Fato.

Jorge Matheus
PS esse blog deveria se chamar teatrollers e para trollers há um antídoto - BLOCK!

Diálogos disse...

Jorge, perdão, mas o que te incomoda tanto, afinal? O fato de nos reunirmos, apresentarmos a proposta ao Satyrianas, desenvolvermos um processo, assistido, escrito e nos expormos, não significa que o processo é infalível e que não possa ser melhorado nos próximos anos.

Tudo bem se você não nos aceita como resenhistas. Isto não é um pedido de aceitação. Cada um dos participantes, de ambos os lados, exercitam suas funções. Assim como aconteceu quando um artista se apresentava em uma das tendas ou salas de teatro, nos apresentamos aqui como resenhistas. O que nisso tudo é tão comlicado de entender?

Ninguém aqui está impondo nada aos leitores. Ao contrário. O blog está restrito a quem o acessa. Portanto, nada de ibope, isso é bobagem. É você quem imagina ser o foco o tal 'sucesso' e o reconhecimento (sei lá do que) que estaríamos buscando. Esse rancor, me parece desnecessário. É só não ler, se isso te incomoda. É só não visitar, se nossa presença te desagrada. É um direito seu não querer dialogar. Assim como é um direito nosso querer debater.

Vamos deixar claro o seguinte: você está preocupado com número não o projeto!

E em qual 'vespeiro' você tão ameaçadoramente nos coloca? A de buscar trocar com críticas e valores os trabalhos dos artísticas? Bom, deve ser complicado para você, então, lidar com outros tantos parâmetros que realizam o mesmo, como os jornais, os sites, as revistas e, principalmente, o público.

Volto à pergunta: o que te incomoda tanto?

Ruy Filho