quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Samba do Ary

Por Ruy Filho
Pandeiro em dia de tempestade


projeto Ouvir Contrar, leituras dramáticas
Análise a partir da dramaturgia.


“Samba do Ary”, de Paulo Pereira

A peça percorre tantos caminhos que qualquer enfoque aqui será uma redução barata. Podemos aborda-la pela usurpação das figuras emblemáticas da filosofia que, dando nome e subjetividade aos personagens, recontextualizam os acontecimentos todo o tempo de modo criativo. Ou pelo viés religioso encarnado na figura de um Cristo salvador, de fato salvador da escola de samba ao ser trazido como destaque do carnaval. Mas, o mais inquietante, submerso ao arcabouço de referências eruditas e populares, está a compreensão de como a realidade necessidade de ambos os instrumentos. Refiro-me, especificamente, ao pensamento e a fé. Ao conhecimento e a crença. Ao respeito e ao Respeito. De forma simbólica, a chuva que castiga a participação da escola de samba determina também outros valores a existência da comunidade. Um desfile se faz na soma de elementos humanos, trabalhos, criatividades, vontades e esperanças. E pertencer ao processo, atingir seu objetivo maior, faz parte da justificativa de se integrante desse contexto. Há pouco de irreal num texto tão metafórico, o que pode parecer contraditório. Mas não é. Buscamos nossa realização na manifestação de um objetivo maior: pertencer a algo. Só que tal pertencimento só se faz plausível se realizador, se verificável. Toda e qualquer comunidade determina a exclusão de um número desproporcionalmente maior. Estamos sempre mais próximos a permanecermos ilhados em nossas escolhas do que agregando possibilidades de inclusão. Por isso a crença, a fé e o Respeito a algo maior que tudo são fundamentais nas sociedades modernas. É preciso nos atermos ao fato de que algo é capaz de unificar as diferenças e traze-las aos mesmos objetivos. Por isso o pensamento, o conhecimento e o respeito são igualmente fundamentais. Para que possamos ser norteados pelas escolhas certas e, através delas, possamos enxergar o bem comum que nos conduz e nos iguala. Cristão demais? Sim. Mesmo com a subversiva apropriação, a peça mantém seus valores em parâmetros de conforto. Só que com uma capacidade ímpar em destituir do comum o óbvio e fazer do discurso algo inquietante e extremamente provocador.

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