terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Sem retorno

Por Ruy Filho
Um pouco de Kafka em cada avesso de sentimento

A partir da dramaturgia.


TENDA DRAMAMIX
“Sem Retorno”, texto e direção de Kiko Rieser
Elenco: Bernardo FonsecaMachado e Felipe Mitsuo


Em um determinado momento, um personagem afirma “você é um paradoxo”. A resposta é direta “todos somos”. Já escrevi em resenhas anteriores sobre a redundância de trazer aos palcos a discussões de relacionamento. Portanto, vamos além. Chico Buarque já havia cantado “devolva o Neruda que você nunca leu”. Esse é o foco de intersecção entre os personagens. Mas não Neruda, Kafka. ‘Carta ao Pai’, especificamente. Há mais na metáfora de uma relação que se desgasta pelo tempo de sua existência e do devir, sobretudo se somarmos a ela o escritor. A relação destrutiva com o pai, os traumas plantados, as vergonhas, as incertezas. Kafka explode em forma de carta seus silêncios e prisões. Expõe a público tudo aquilo que entende ser seu pior, indo contra as regras familiar, as convenções dos sentimentos e as atribuições que lhe caberiam como rebento. Que todas as relações passam, em alguma instância, por essas circunstâncias é a metáfora a ser devorada. Do amor e desejo ao companheirismo em forma de acordo, deste à distância e certa culpa transferida ao outro, agora feito responsável pelas supostas faltas de conquistas, de escolhas. Mas isso não é verdade. Transfere-se ao mais próximo a responsabilidade imediata dos desarranjos como se fosse ele o único portador das soluções. Essa necessidade de se ausentar de si mesmo fundou durante muitas décadas outro parâmetro de relacionamento, onde a cumplicidade se tornara submissão e o prazer apenas meio de sustentação seja lá do que fosse que pudesse esconder a infelicidade. Fugir disso foi uma conquista. A aceitação social e cultural do divórcio levou tantas outras décadas sem que a ação fosse condenada. E, aos poucos, os direitos se fizeram naturais e comuns. De lá pra cá, outros tantos direitos têm sido confrontados à aceitação popular. Mas a cultura tem em seus aspectos conservadores o mais forte traço de bem-estar. Os relacionamentos homossexuais vieram a tona, enquanto alguns observam ao longe, aceitando o filho do vizinho, escondendo o seu próprio da vergonha. Enquanto não se aceita como uma união natural, já que o desejar o outro pouco se refere ao gênero, mas ao ser, muitos se arriscam a conquistar seu espaço, quase que em forma de protesto. Do movimento que reunião os gays para que se beijassem no interior do shopping Frei Caneca, alguns anos passados, à comercialização da busca do direito em forma de passeata, tudo parece dar certo. Até que alguém acerte uma lâmpada em seu rosto em plena Avenida Paulista. Até que seja violentamente espancado por ser compreendido como uma aberração. E tudo volta a se tornar mais claro. Não haverá real aceitação enquanto houver preconceito. E o homem é, por natureza, preconceituoso sobre aquilo que não entende ou teme. Tem muito de Kafka nessa condição. Na ousadia de expor as feridas de modo violento e sincero, no assumir a monstruosidade naqueles que são incapazes de enxergar a essência das coisas. O mais interessante na peça, ainda que tenha um olhar juvenil a ser amadurecido, é construir esse percurso metafórico. Traduzir Kafka como signo de uma relação, de maneira sutil e sem intelectualismo inacessível. Não é preciso ter lido Carta ao Pai para compreender os personagens. A relação em si traz a naturalidade de qualquer relação, sem impor sua condição homossexual. O que é ótimo, pois nos obriga a enxergar o humano dentro dessa relação e não o exótico existente nas cabeças conservadoras e antiquadas. E é esse humano, reunido sob as falas inquietas de um Kafka liberto, que surge como construção cênica. A peça tem muito para crescer. Mas já tem também muito que mostrar.

2 comentários:

Kiko Rieser disse...

Pô, Ruy, muito muito legal sua leitura. Principalmente esse final, frisando que o foco não é os personagens serem homossexuais, mas a relação estabelecida e, por isso mesmo, a aceitação via natural. Só quero entender o que é esse olhar juvenil carente de amadurecimento. É no diálogo que a obra cresce! Beijos.

Diálogos disse...

Kiko, que bom que leu a resenha.

Não se preocupe com esse comentário sobre a jovialidade. Isso não minimiza as possibilidades do texto. De forma alguma. É que algumas percepções do relacionamento surgem com o tempo, com as decepções que sempre são novas, e tudo se forma no viver os acontecimentos. A carência não é negativa, pelo contrário, é algo que passamos o resto da vida buscando.

Me lembro, em meu primeiro trabalho Zé Celso dizer que tínhamos a inocência necessária. E como gostaria de ainda ser inocente, mas...

Você consegue trazer um diálogo representativo dessa relação, o salto talvez seja compreender mais verticalmente a condição humana nessas relações.

Usar das metáforas para construir as relações, e usar das relações para construir algo maior sobre todos nós. Isso é bem difícil.

Fica uma sugestão, apenas. Você já leu Noites Brancas, do Dostoiévski? Vale a pena. Você vai curtir, certamente.

Ruy Filho